A chama da Ludovic que nunca se apagou

Entre o legado construído no underground e a conexão com uma nova geração de músicos e fãs, banda reflete sobre o que muda e o que permanece vinte anos depois

É difícil falar do novo disco da Ludovic sem mencionar o legado construído ao longo de quase três décadas de carreira, trajetória que a transformou em referência na cena independente. Mas, muito além disso, a banda segue mais atual do que nunca, com público majoritariamente jovem nos shows.

É um tanto curioso pensar que as faixas escritas em um contexto tão diferente do atual continuam ecoando tão intensamente entre a nova geração. Em uma tentativa de responder à pergunta, entrevistamos a banda durante a preparação para a primeira edição do São Paulo Independent Music (SPIM), que também marcou o show de lançamento de seu terceiro álbum de inéditas.

“Tenho a impressão de que, desde o momento em que a Ludovic acabou, nosso público se multiplicou incontáveis vezes. Vemos o valor que a banda tem para as pessoas. Elas se enxergam e têm essa carga motivacional para produzir outras formas de arte”, afirmou Jair Naves.

Enquanto canta sobre suas dores e vulnerabilidades, Jair é um frontman teatral que não só convida o público a se entregar à apresentação como a subir ao palco nos momentos mais intensos. Os shows são um ambiente para extravasar os sentimentos e sentir-se acolhido em meio aos gritos e angústias. A conexão criada com a plateia não se encerra com o show e continua ecoando depois dele.

“Quando penso no porquê das pessoas gostarem de nós, acho que tem muito a ver com honestidade e entrega emocional, pelo menos aos meus olhos. Falamos de coisas que talvez só tenham essa válvula de escape. São sentimentos difíceis de abordar no cotidiano e de admitir em voz alta, mas que, por algum motivo, encontram esse fluxo na música.”

“Entre as coisas das quais me orgulho, a Ludovic sempre se propôs a proporcionar um ambiente que não é sobre competição. É muito importante todos terem essa voz ativa e se sentirem capacitados a fazer o que quiserem, seja música, um posicionamento político ou tentar mudar o mundo da sua maneira. Vai além de uma influência musical, que também existe e é louvável, mas sobretudo existe o senso de comunidade. Enquanto seguirmos fazendo música, seja com a banda ou sem, eu espero que a gente continue despertando essa coisa catalisadora nas pessoas.”

O lançamento da Ludovic não é um mero retorno ou passada de bastão para novas bandas; eles seguem sendo contemporâneos e evoluem junto com essa nova leva de artistas. Para Zeek Underwood, esse legado começou com uma semente antiga. “Lá atrás, o Jair ficava falando 'monte a sua própria banda' e isso aconteceu. É incrível ver nossa influência em bandas como Lupe de Lupe, Gorduratrans, etc. E já são duas gerações de novas bandas. Da segunda, tem boasorte, eliminadorzinho e outras que começaram há pouco tempo.” 

Apesar de compartilharem a mesma cena, algumas diferenças ficam evidentes entre artistas que vivem momentos distintos tanto na carreira quanto na vida. “Eu vejo uma coisa que tínhamos em nós que é inevitável perder um pouco com o tempo: a vontade de fazer acontecer.” 

“Eu falei da boasorte e há pouco tempo fui no show deles, e a vocalista tinha uma garra no jeito de cantar, uma vontade de desbravar. Depois, falando com ela, eu vi isso e me reconheci muito quando eu tinha vinte e poucos anos”, lembrou Jair. Há algumas semanas, a banda também relatou ao Rota Indie a experiência de ter recebido o cantor nesse show.

“Eu, o Zeek e o Edu, que era mais novo ainda, nos enfiávamos em qualquer buraco para tocar e era uma alegria imensurável ganhar qualquer coisa. Provavelmente perdemos um dinheirinho nessa, mas tudo bem porque era uma coisa tão pulsante, era a razão de existirmos. Eu vejo isso nessas bandas. Também vejo uma certa naturalidade em abraçar e expor a própria vulnerabilidade. É uma coisa muito saudável, porque quando eu comecei a frequentar os shows, era um ambiente muito masculino, especialmente na cena do rock”, pontuou.

“A experiência de ser jovem e o entusiasmo não mudam de uma geração para outra. Mudam as circunstâncias, o que você tem à mão para fazer música e se conectar com pessoas, mas a angústia e o deslumbramento de ser jovem sempre vão ser iguais. Talvez por isso mesmo aquelas músicas antigas ainda tenham significado para pessoas que nasceram depois de nós.”

Não à toa, a banda virou quase uma entidade do underground, apesar de não se enxergarem como tal. “É muito tocante que vocês se refiram dessa forma e até meio surpreendente, porque quando eu penso na banda Ludovic, penso muito no início de tudo, quando era só eu com meu violãozinho tentando trabalhar minha versão musical como compositor”, disse o vocalista.

Entre as histórias favoritas da banda está um episódio um tanto sangrento, mas com cicatrizes das quais eles se orgulham. “Teve um show no Ipiranga onde o teto era super baixo e o Jair meteu a cabeça. Começou a sangrar, mas o show continuou. Nesse mesmo show, tinha uma abertura no palco. Eu tava pulando, enfiei a perna inteira nela e saí todo arranhado. Foi bem marcante, todo mundo acabou na enfermaria”, lembrou Zeek.

“Tem várias histórias. Eu tinha uma mania meio boba de, por algum motivo, enrolar o cordão do microfone no pescoço. Um dia aconteceu de alguém pular, puxar o cabo e eu comecei a ficar muito vermelho. Lembro de pensar: 'Meu Deus, não posso morrer desse jeito. Vai ser a morte mais estúpida”, contou Jair.

Mesmo durante o período de inatividade do grupo, os integrantes nunca saíram de cena. Além dos outros projetos de cada um, como a Apeles (Eduardo Praça), a Shed (Zeek Underwood) e a carreira solo de Jair, alguns reencontros mantiveram a chama acesa - essa que ilustra a capa do disco homônimo da banda, lançado pela Balaclava Records no fim de julho.

Ludovic (2026)

terceiro álbum da banda chega vinte anos após o segundo. Além de faixas explosivas, que já eram características do grupo, o novo álbum também tem momentos de respiro, mais contemplativos e introspectivos. 

“A nostalgia é um sentimento bonito, mas muito perigoso. Traz um certo conforto, mas uma relutância em ousar e arriscar. Tentar simular aquela crueza e urgência de 2004 ou 2006 nem soaria muito autêntico. Então, o caminho que nos pareceu mais adequado foi tentar resgatar a essência da banda, mas também atualizá-la e fazer jus a quem somos hoje em dia”, explicou o cantor.

“No começo, falávamos sobre o embate com a vida adulta e sobre procurar o nosso lugar no mundo. Hoje, sabemos quem somos e qual o nosso lugar, então falamos de outras angústias. Esse álbum é sobre quem já fomos, quem não somos mais, pessoas que amamos, pessoas que não amamos mais”, continuou.

As inquietações agora também passam pelas transformações do mundo, como o avanço desenfreado da tecnologia e uma sociedade cada vez mais pautada por dinheiro e números. “Eu acho que seria muito difícil ser nostálgico tendo o mundo ao nosso redor mudado tanto.”

Gravado e produzido por Fernando Sanches no estúdio El Rocha, o disco se beneficia da evolução dos equipamentos. Comparativamente, a banda destaca que as gravações dos anos 2000 foram feitas com um único amplificador responsável por efeitos que, hoje, também podem ser obtidos com pedais muito mais acessíveis e variados.

“Colocamos mais vozes, algo que fizemos pouco no ‘Idioma Morto’, apesar de já existir um esboço, como em 'Poço de Hombridade'. Agora, o Edu cantou algumas partes e eu cantei outras. Somos dois vocalistas nos nossos projetos paralelos e nos debruçamos bastante sobre isso”, comentou o guitarrista.

Ao atualizar sua sonoridade, a banda também se preparou para uma possível resistência do público, mas a resposta surpreendeu. “Eu acho que a recepção está sendo melhor do que esperávamos. Na época dos lançamentos, 'Servil' causou estranhamento por conta do pós-punk e 'Idioma Morto' porque trazia muita coisa declamada. Estava me preparando para comentários como 'naquela época eram bons' ou 'banda que não volta mais', mas não rolou muito até agora. Embora não seja o objetivo, é muito bom sentir que não estamos sozinhos, como se alguém conseguisse se enxergar no que estamos sentindo, falando e produzindo.”

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