Nova fase: Flerte Flamingo retorna com disco introspectivo

Banda apresenta faceta diferente com o álbum ‘Dói Ter’

Após três anos desde seu último trabalho, a Flerte Flamingo retornou ao mundo da música com seu novo álbum: Dói Ter. O disco marca diversas mudanças para a banda, que atualmente é formada por Leonardo Passovi (vocal), Bruno de Sá (baixo), Gustavo Cravinhos (guitarra e teclas) e Igor Quadros (bateria).

Em conversa com o Rota Indie, Passovi compartilhou detalhes sobre o processo de criação do disco — com influências que vão de Arctic Monkeys a Jorge Ben Jor — e a nova fase do grupo, que nasceu em Salvador e se mudou para São Paulo.

Como foi o processo de composição do álbum?

LP: A composição foi separada da produção. Quando nos imergimos [no projeto], as músicas já estavam compostas.

Eu fui compondo em um processo mais individual, com a maioria das músicas entre 2019 e 2022, enquanto estávamos trabalhando em outras coisas que já tinham sido compostas. Esse fluxo acaba se interpelando um pouco e, felizmente, tínhamos um bocado de coisas para colocar na rua enquanto estávamos produzindo o álbum.

Depois que eu já tinha escrito músicas o suficiente, olhamos para o todo e falamos: “dá para fazer uma seleção desse balaio aqui.” Alugamos uma casa para ficar 10 dias e planejamos elaborar um arranjo por dia para dar conta de todas as faixas que queríamos com participação dos instrumentos.

Eram 12 músicas de início. Uma delas seria mais lo-fi, feita em casa tranquilamente, e a outra com voz, violão e piano. Nos fechamos nessa casa para montar meio que um estúdio de guerrilha para o resto do disco, que seria feito com a banda. O lugar era bem diferente, as alas eram separadas umas das outras. Transformamos uma delas em estúdio. Outra tinha uns quartos meio de exército, com beliches. Era uma casa para umas 15 pessoas, mas éramos só em cinco.

Então ficavam vários beliches vazios que entupíamos de equipamentos. Também tinha cozinha, churrasqueira, espaço para fazer fogueira e uma piscina enorme que ficamos só olhando porque estava fazendo 12° C. A rotina era entre as alas durante o dia e, entre 14h e 23h, no estúdio tocando. Tinha um pequeno intervalo para o almoço, por vezes jogávamos um “gol a gol” na quadra de futebol. Normalmente eu ficava chutando bola ali enquanto estava pensando alguma coisa e o pessoal fazia churrasco. Eu era o único que não bebia, mas a cerveja rolava solta.

Foto/Divulgação

Nesse modus operandi relativamente lúdico e tranquilo, no final de cada dia conseguíamos nos dar por satisfeitos e falar: “conseguimos avançar legal, temos mais uma música.” E no final, quando montamos tudo isso, voltamos para São Paulo para lapidar alguns arranjos. Felizmente, a tecnologia permite que trabalhemos de maneira bem fluida, mesmo em casa. Nos encontrávamos, percebíamos o que tínhamos feito e o que dava para melhorar, porque algumas coisas estavam mais cruas. Então, gravamos e, uma vez que tínhamos a todas as bases de banda, vimos que as outras coisas podiam costurar aquilo. No fim, das 12 músicas iniciais, ainda fizemos mais duas de interlúdio para dar toda essa costura da narrativa do álbum.

Ao final, percebemos que certas ideias só seriam tidas naquela circunstância. Tem muita gente que, para gravar um álbum, chega direto no estúdio, compõe a música, ali mesmo já produz ou então, se já chega com a composição, produz o arranjo no estúdio e a produção é gravada ali instantaneamente. Quando você produz e grava ao mesmo tempo, você vai tocar uma linha de guitarra, por exemplo, e acaba fazendo algo mais convencional. Já quando você está numa circunstância mais ampla, livre de preocupações com o tempo e com o dinheiro que tá sendo gasto no estúdio — o aluguel de cada hora de estúdio é caro — as ideias fluem de maneira muito mais livre.

Tem uma linha em Onze de Dez, a última música, que me chama muito a atenção, porque é uma guitarra que fica fazendo um apito, como se fosse um sonar. Dificilmente a pessoa vai ter uma ideia como essa do nada. Você vai pensar nisso quando está no meio do mato, tocando uma canção e se permitindo sentir o que está acontecendo. Uma linha como essa é feita muito mais para contribuir para um sentimento do que necessariamente para propor a melodia. Aliás, mal é uma melodia, é uma nota que fica acendendo como se fosse uma luzinha.

É justamente esse o tipo de ideia que, para mim, representa a circunstância em que fizemos o álbum, que favoreceu esse tipo de coisa.

Antes, o som de vocês não era tão voltado para o rock. O que motivou esse foco maior no gênero no álbum?

LP: Não foi algo planejado, foi bem espontâneo. As canções foram selecionadas a partir do que elas eram na voz e violão, mas já tinham algumas em andamento que percebíamos o caminho que estavam indo. De qualquer forma, ainda queríamos muito respeitar o que a canção pedia.

Claro que, às vezes, queríamos imprimir uma atmosfera um pouco mais sombria ou mais amena. Mas o fato do álbum acabar soando mais pesado, com mais elementos do rock na atitude, no sotaque e nos timbres, foi por acaso. No momento que nos reunimos, sentimos o que as músicas pediam, e isso falou mais alto de maneira bem espontânea.

Como foi a montagem da capa do álbum?

LP: Eu sou um maníaco por coesão artística. Até evito coisas que podem sair da nossa capacidade de garantir que vai ser bem feito, porque eu prezo por isso. É por isso que ainda não fizemos nada com vídeo, por exemplo. Quero ir para esse universo quando tivermos certeza que vai ser coeso.

Esse álbum é muito cinematográfico. Se você escuta ele todo, tem uma cadência, uma narrativa que se costura através das músicas, mesmo que não esteja necessariamente explícito nas letras. E a capa foi produto de muitos experimentos com nosso querido amigo Bruno Castro, que tem uma sensibilidade visual fotográfica e conseguiu traduzir um sentimento que ornava com o disco.

Na época, eu estava muito fissurado em imagens de cinemas antigos abandonados. Também estava começando a me interessar por arquitetura Art Déco, e um amigo tinha acabado de me apresentar o movimento do cinema expressionista alemão. As três coisas começaram a conversar: cinema alemão, cinemas abandonados, arquitetura Art Deco. Muitos dos cinemas abandonados eram antigos o suficiente para terem sido feitos no momento do Art Deco, coisa de 100 anos atrás, que era mais ou menos quando acontecia o expressionismo alemão. Então, ficou um triângulo cinematográfico e estético que funcionava bem com essa narrativa do álbum, que é meio subliminar, não é muito clara.

Fomos atrás de cinemas para fotografar. Estávamos começando a cogitar ir para um município vizinho para invadir um cinema abandonado e tirar fotos, ao mesmo tempo que descobrimos o cinema Marabá, em São Paulo. Ele estava debaixo dos nossos narizes o tempo todo, mas ninguém tem costume de ir lá, ninguém fala sobre ele e eu tinha acabado de me mudar para cá, então pouco sabia. É um cinema muito bonito. Tivemos que pegar uma sessão dublada de Capitão América numa segunda-feira à noite, tiramos fotos do cinema durante e depois que acabou o filme. A verdade é essa, estávamos fotografando durante o filme.

Depois disso, acho que no dia seguinte, Bruno veio aqui no meu prédio porque achou bonito e fotografou algumas coisas. Ficamos brincando com os elevadores, mandando eles para outro andar e chamado de volta para fotografar de diferentes ângulos. Então, achamos um na vertical no qual os elevadores mal pareciam eles mesmos porque estavam deitados, pareciam algum tipo de trem ou foguete pronto para ser lançado.

Quando olhamos para aquela foto, parecia que estávamos, ao mesmo tempo, viajando dentro de uma nave espacial gigante e dentro de uma tela do cinema vendo quem já foi embora. Para mim, isso ornou perfeitamente com a narrativa do álbum, que é nostálgico e cinematográfico. E foi assim que essa capa se formou.

E quais foram as principais referências musicais de vocês?

LP: Considerando o que fala mais alto no coração de cada um, os denominadores comuns passeiam pelos grandes nomes da MPB, invariavelmente. Vejo muito de Djavan quando o Liber toca bateria. Ele inclusive está fazendo um estudo sobre isso na faculdade. Mas, quando você olha para o que se manifestou ali, tem alguma coisa de Black Sabbath e muito Led Zeppelin, um ponto de encontro entre mim e Cravinhos como guitarristas.

Como baixista, Bruninho também entregou algo que dialogava com isso porque ele tem isso dentro dele. Ele tocou numa banda cover de Pink Floyd na juventude. Eu toquei numa banda cover de Arctic Monkeys quando era mais novo. Tudo acaba ficando impresso no álbum.

Acho que nos reconectamos com muitas coisas que eram primordiais de quando começamos a tocar nossos instrumentos, mas conforme estudamos e evoluímos, queremos experimentar outras coisas. Senti uma forte influência dos artistas essenciais, aqueles que ouvíamos quando meninos e que se manifestaram na hora de fazer esse álbum.

Pegamos algumas referências de arranjos de música de Gal Costa, Arctic Monkeys e Jorge Ben Jor. Los Sebosos Postiços foi um dos principais denominadores comuns entre mim e Liber lá atrás, antes sequer dele entrar no Flerte. Ele me apresentou a banda e eu me encantei porque percebi, a partir dali, que era possível fazer indie rock e samba no mesmo arranjo e soar honesto com os dois.

Agora, falando especificamente do álbum, se eu tivesse que destacar algumas referências, eu diria o Humbug (2009) do Arctic Monkeys, acho que é evidente em alguns momentos. O Ben (1972), de Jorge Ben, foi fundamental. Colocaria o Awaken My Love (2016) do Childish Gambino nessa lista.

Também tem o primeiro álbum do Arctic Monkeys, Beneath the Boardwalk (2006), porque ele condensa muito a juventude e a vida noturna, assim como o Teorias de Amor Moderno (2008), primeiro álbum do Vivendo ao Ócio, que foi muito importante lá atrás, quando eu tinha 15 anos porque me fez perceber que eu poderia fazer indie rock na Bahia.

Senti as letras com uma pegada mais introspectiva nesse álbum, algumas mais carregadas de melancolia, tudo bem sentimental. No geral, bem reflexivo. Queria que você me contasse um pouco mais sobre isso.

LP: A narrativa do álbum é o tipo da coisa que foi se formando com uma boa dose de espontaneidade. Ao longo do processo, fomos descobrindo um pouco também sobre o que o disco se tratava. Acontece muito de você escrever uma parada e meses, anos depois, perceber que o significado daquilo veio de uma parte da sua vida que você não tinha percebido. Aquelas palavras se formularam na sua mente, naquela ordem, sem que você soubesse, mas acaba que você estava dizendo mais do que você falou. Outros compositores já me confirmaram que também acontece com eles.

Eu percebi depois de muito tempo que esse álbum, a nossa ideia, o conceito que eu tinha na mente, fazia jus à primeira fase da Flerte Flamingo. Isso era uma premissa do álbum.

O primeiro disco de qualquer banda tem que condensar o que ela apresentou até ali. A partir do segundo, você vai mostrando novos momentos na caminhada. A ideia de Dói Ter também era nos apresentar para pessoas novas e mostrar o que era o Flerte Flamingo antes da pandemia, antes desse álbum e de se mudar para São Paulo. Queríamos transmitir isso em uma espécie de sentimento, de momento emocional. Então, acabamos tentando emular o que seria a vivência de estar presente na cena independente, efervescente, pré-pandêmica de Salvador.

O amor e o romance estão ali nas letras, como em nossas vidas, o tempo todo. Quando estamos trabalhando, saindo para fazer alguma coisa, nossa cabeça está sempre nisso. Não faz muita diferença se você namora ou se é solteiro porque pelo menos 15 ou 20% da sua cabeça está sempre com esse sentimento aceso, pensando nas pessoas que você está afim, nas que passaram pela sua vida… Se você vai para um lugar e tem alguém que você ficou, que você quer ficar ou que você já pensou sobre, o pensamento está sempre presente, ligado no nosso cérebro. Nas canções, esse é o assunto que está sendo dito, mas elas transmitem sentimentos e, às vezes, elaboram elementos no imaginário que vão um pouco além disso.

Quando você pega o recorte de uma cena independente, como era que vivíamos em Salvador com as outras bandas, tocando em casas de show, fazendo eventos todo mês, percebe que precisa das bandas e da galera para ter uma cena independente artística ativa. As pessoas precisam se regozijar em torno daquilo. E sempre percebemos que o ambiente do show do Flerte Flamingo era de paquera. As festas que nós fazíamos eram eventos em que as pessoas iam muitas vezes porque tinha gente que elas se interessavam. Essas histórias todas chegavam até nós de uma maneira ou de outra.

Salvador é uma cidade onde o ambiente universitário jovem de classe média é muito mais restrito, tem muito menos gente, então as pessoas se conhecem com mais facilidade e esse círculo acaba que fica até um pouco mais harmônico, homogêneo e legível dentro da sua própria heterogeneidade. E isso compromete o disco todo. Eu gosto muito disso, porque conseguimos, em alguma medida, transmitir diversos elementos: algum nível de discórdia e romance, muita introspecção e reflexão sobre a interferência que esse romance tem na própria vida do álbum, que tem uma consciência. Ela guia o sentimento do ouvinte até chegar no nível de intorpecência e perdição. A pessoa meio que fica desorientada, depois ela se encontra de novo na introspecção e tem um último ato de fúria noturna até amanhecer de maneira etérea.

Foto/Divulgação

Ainda pensando sobre o álbum, queria perguntar sobre o título. O que significa para vocês?

LP: Ele é mais um sentimento do que um significado necessariamente. É uma frase incompleta, falta um complemento porque “ter” normalmente é um verbo transitivo. É muito raro você usar o verbo “ter” como um verbo intransitivo, somente quando vai usar o verbo como um substantivo.

“Dói ter” é como uma pontada, eu sinto. Um dia em casa, de madrugada, não me lembro se eu já estava digitando e parei no meio, mas me veio essa ideia.

Foi justo na época que tínhamos acabado de gravar e a banda ainda não tinha ouvido o álbum antes de mixar. Então, quando terminamos toda a montagem e fui mostrar para eles o que tínhamos feito, eu botei esse título no arquivo e deixei lá. Não falei nada, para ver se os caras iam perceber. Na hora em que chegamos, o Cravinhos falou:

— E o que é isso aqui? É o nome do álbum?

— Você acha que serve?

Os caras ficaram olhando e concluíram:

— Parece latim.

Realmente, quando eu li, não parecia português, mas sim um idioma arcaico. Até cogitamos não botar o acento no “o”. Mas eu prefiro com acento, não precisa fingir tanto que não é português, e tem acento. Mas acho que, no fim das contas, a escolha do título vai muito mais sobre como ele soa e o que isso propõe emocionalmente do que sobre a semântica.

Vocês vieram da Bahia para São Paulo. Sentem que aqui tem uma diferença de lidar com artistas independentes por aqui?

LP: Na Bahia, hoje em dia, praticamente não tem cena independente. Eu não estou sabendo de cinco bandas tocando. Tem as que já existiam e que se mudaram, ou ainda estão lá, mas não está rolando uma parada como em 2017, 2018 e 2019.

Os lugares que a galera tocava fecharam, são muito mais escassos. Não tem um point da cena, que as pessoas estão indo descobrir novas bandas. Em São Paulo, tem. As pessoas prestam atenção e tem gente que vai só de curiosidade.

Tocamos no Porta Maldita no comecinho desse mês e quase não divulgamos, quisemos fazer uma parada bem de surpresa, começamos a falar só quatro dias antes. Queríamos sentir a vibe de lá. Estávamos mais interessados em tocar para a galera que vai lá e para quem estivesse atento para nos assistir. O número de pessoas que estavam lá, não conhecia e começou a nos seguir foi alto, me chamou a atenção. Vi que tem gente que gosta de estar naquele lugar e vai descobrir coisas novas.

E eu vejo toda hora alguma banda surgindo [em São Paulo], enquanto em Salvador praticamente não tem selo. Se você quiser lançar uma música lá, tem pelo menos dois selos que eu consigo pensar. Mas são pessoas que fazem outras coisas no ecossistema da música e que decidiram fazer isso porque percebem essa carência. É diferente de gente que só faz isso, que realmente escolhe abraçar essa posição no ecossistema da música.

Em 2021, percebemos que todos os lugares que tocamos em 2020 fecharam e não tinha muita perspectiva de abrir. Era eu quem ficava em contato com as casas de show, até muito recentemente não tínhamos empresário. Então eu tinha um contato próximo com a galera das casas de show, eles próprios às vezes me abordavam perguntando quando ia ter show, se queríamos fazer algum evento, e isso morreu.

Nessa época, a perspectiva de novidade era muito baixa e, vendo que a carência ia ficar mais forte, a nossa vontade de estudar música formalmente foi chegando na hora de se concretizar. Liber se formou em Ciências Sociais, foi passar um ano na França e voltou querendo estudar Música. Eu estava me formando no Bacharelado Interdisciplinar em Artes. Com 23 para 24 anos, paramos para refletir juntos sobre a vontade de estudar música. Vamos fazer isso em Salvador para ficar mais quatro ou cinco anos na cidade, mas tocando onde? Íamos sair de Salvador com quase 30 anos de idade? Não é melhor aplicarmos para estudar em São Paulo e começar a se jogar na cena de lá?

Nem todo mundo da banda quis vir. Mas, entendemos que aquele era um movimento certo. Em determinado momento, tínhamos tornado isso irreversível, eu já estava matriculado na faculdade, tudo estava pronto. Apertamos o botão e viemos.

Quando chegamos aqui, recrutamos novos membros, montamos a banda praticamente do zero, mas era um facilitador já termos uma caminhada, música lançada, gente acompanhando e tudo mais. Foi estudando aqui que começamos a sentir a vibe da cena como um todo. E isso acaba ficando impresso um pouco na nossa forma de tocar.

Acho que a mudança para São Paulo está impressa no disco e é por isso, talvez, que a capa seja tão cinza, mas abraçamos esse cinza, eu gosto disso.

Não temos nenhuma perspectiva nem vontade, nesse momento, de voltar a morar em Salvador, por mais que amemos lá. A escolha para se mudar para São Paulo foi acertada como movimento de carreira.

A banda já tem quase 10 anos de carreira. Agora que vocês estão em São Paulo, teve mudança de formação, como você falou. Queria que você me contasse um pouco mais sobre isso.

LP: São 8 anos de Flerte Flamengo de fato. Porque o nome antes não era esse, na verdade, nem tinha nome. Foi em 2017 que a banda começou a lançar coisas como Flerte e começou a existir. Antes disso, era um projeto, um embrião. Foram dois anos de fase embrionária porque ainda estávamos nos encontrando como músicos. Fernando, que hoje é o produtor da Flerte, fundou a banda comigo como guitarrista.

Desde que passamos a existir como Flerte Flamingo, não tínhamos exatamente mais controle do que queríamos propor esteticamente. Não sabíamos onde queríamos chegar, quanto menos o caminho. Fomos aprendendo ao longo desse processo enquanto produzimos sob a direção de pessoas mais experientes.

Encontramos muito da sonoridade inicial do Flerte Flamingo por meio de Paulinho Rocha, que foi quem condensou as nossas referências junto com a gente, nos mostrando o que estava sendo feito. Apresentamos para ele a nossa ideia de Arctic Monkeys, Jorge Ben, Los Sebosos Positiços e outras referências brasileiras, como Chico Buarque, a própria Gal Costa, que escutamos para caramba, coisas da Tropicália. Tudo isso engrossou nosso caldo para assumirmos as rédeas e, aos poucos, ficarmos mais à vontade para experimentar com as maluquices que queríamos fazer.

Você pega as canções do Postura e Água Fresca (2017), por exemplo, e vê que elas têm um formato mais convencional, um pouco radiofônico, pop, comportado. Quando você escuta a canção, ela começa, acaba e é isso. Um pouco depois, começamos a experimentar com os interlúdios estranhos e coisas mais psicodélicas. Depois de toda essa caminhada, sentimos que já conseguíamos dar conta do recado.

Tudo o que botamos para fora a partir de 2021 foi produzido por nós mesmos e Nando, que tinha fundado a banda comigo em 2015, e tocou até 2017. Ele foi estudar fora em Berkeley, Boston, e voltou justamente para ser esse produtor que é um de nós. Não é uma relação de alguém de outra geração com décadas de experiência a mais. É uma pessoa que está no comando do navio junto comigo, na hora de decisões musicais, mas que é essencialmente um de nós e tem um pensamento geracional parecido. É uma referência no caminho, mas se olharmos para um trabalho como como “Dói Ter” assim como olho para “Truques Velhostambém, como algo muito mais nosso porque todas as ideias ali foram cultivadas por nós num âmbito mais interno.

Para nós, a principal mudança é sentir que fizemos um bom álbum, do qual podemos nos orgulhar e saber que ele foi integralmente feito pelo nosso time. Nando, Liber, Bruninho, Cravinhos e eu.

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