Com nova formação e mais ruído, boasorte lança “Amiga do Tempo”

“São Paulo influencia nosso trabalho. Pode ser uma desilusão amorosa, a depressão ou qualquer coisa pequena”, afirma a banda sobre o momento que redefiniu sua sonoridade

Quase dois anos depois do álbum de estreia Indelével (2024), a boasorte abre um novo capítulo da carreira. O single Amiga do Tempo, que chega às plataformas em 3 de julho, apresenta a formação atual da banda e antecipa uma sonoridade mais ruidosa e experimental. O lançamento será comemorado no dia seguinte em um show no Bar Alto, durante o aniversário do Rota Indie, ao lado da catarinense Exclusive os Cabides.

Em entrevista, eles falaram sobre a transformação vivida desde o primeiro disco, a mudança para São Paulo, a importância do ao vivo para o amadurecimento da sonoridade e os caminhos que pretendem seguir daqui para frente.

A banda começou em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, em 2024. No mesmo ano, o quarteto lançou o disco de estreia Indelével e fez o primeiro show em São Paulo. Na capital, encontraram espaço físico e simbólico para desenvolver o projeto com mais liberdade criativa e oportunidades. 

Antes do início oficial, Ingrid Rocha (voz e guitarra) e Rodrigo Fukuda (baixo) se conheceram em 2017 e passaram a tocar juntos em uma banda cover com outros integrantes, até que a vontade de explorar o lado autoral se intensificou no período pós-pandemia.

“Surgiu a oportunidade de fazer nosso primeiro álbum, mas fizemos algo bem despretensioso; não tínhamos grandes ambições. Foi tudo muito orgânico, não investimos em divulgação do álbum. O que mudou a banda, mesmo, foi o ao vivo”, contou a vocalista.

Já no começo de 2025, mudanças na formação trouxeram para o lado deles a baterista Marina Izaac. “Sou da mesma cidade e os via tocando em barzinhos, mas nunca pensei que fôssemos tocar juntos. Fui fazer um sub porque eles precisavam de baterista para um show. Mas sou baixista, nunca tinha tido banda tocando bateria. Pensei ‘vamos ver o que dá’ e deu certo. Fizemos o primeiro show no Banda de Casinha do Rio de Janeiro”, lembrou.

Além do grupo, Marina se divide entre outros três projetos musicais. “Eu tenho três bandas autorais: boasorte, PUTZ, EMMERCIA e ainda sou baixista do Di Ferrero. Também trabalho em agência, então é tudo muita loucura, tenho a vida diurna e a noturna. Mas consigo conciliar porque amo todos os projetos.”

O guitarrista Pedro Macedo foi a adição mais recente da banda, em outubro. Natural de Cubatão, ele chamou a atenção do grupo após publicar vídeos tocando guitarra nas redes sociais. “A Jonabug compartilhou um vídeo meu e isso chegou até a Ingrid, que me chamou, a princípio, para fazer um sub também. Acho que é a cartada infalível dela (risos). Não conhecia, mas ouvi o álbum e fiquei viciado. Meu primeiro show foi no Overdrive, em Mogi das Cruzes. As referências de nós quatro casaram certinho”, contou.

“Estamos em um momento de muita sinergia. Temos as mesmas referências, estamos na nossa melhor fase de composição, de tudo”, comentaram.

Mesmo espalhada entre diferentes cidades, a banda mantém uma rotina intensa de viagens. Fukuda, por exemplo, encara cerca de sete horas de estrada para as apresentações na capital. “Tem muito sacrifício individual. Cada um faz sua parte. Quando aparecem convites como os que temos recebido, isso dá muito gás para continuar”, resumiu.

‘Amiga do Tempo’ abre novo capítulo

Na próxima sexta-feira (3), a boasorte lança Amiga do Tempo, o primeiro single em dois anos. Com produção de Roberto Kramer, foi gravada no ano passado e aborda temas como crises existenciais e a passagem do tempo.

“Essa música inaugura uma nova fase. Tem mais ruído e guitarras mais presentes. Queremos fazer música mais barulhenta, com menos apego aos refrões. Essa ainda tem bastante refrão, então é uma faixa mais ‘hit’, mas já mostra o caminho”, apontou Ingrid.

“É o primeiro lançamento com essa formação e a primeira música que gravei oficialmente na bateria. A Ingrid veio com a letra e a demo, com voz e violão, e compusemos bateria e baixo juntos. A música está pronta há cerca de um ano, mas nesse tempo chegou o Pedro e quisemos lançar no momento certo. Vai ser muito especial”, disse Marina.

Marcada pela mudança de sonoridade, a nova fase explora afinações diferentes, experimenta com dissonância e traz influências de Sonic Youth, Ludovic, Patti Smith, Radiohead, Double Virgo, Pixies e Hayley Williams. Após o single, os planos são focar em um álbum, ainda sem calendário definido.

Um pé no interior, outro na capital

Com letras que falam sobre a vivência na cidade, os integrantes apontam a influência de São Paulo no trabalho. “A cidade nos coloca em situações nas quais o externo influencia o interno. Pode ser uma desilusão amorosa, a depressão ou qualquer coisa pequena. Às vezes, é uma cidade meio distópica, caótica, urbana e visceral”, ressaltou a vocalista.

Rodrigo nota uma diferença gritante entre o interior e a capital, tema que atravessa a banda a todo momento. “Quando fico muito tempo em São Paulo, quero voltar pro interior. E quando volto pro interior, sinto o contrário. Estou sempre entre o copo cheio e o vazio. Acho que isso faz parte da identidade da banda: equilíbrio dentro do caos.”

Mesmo morando a poucos quilômetros de Santos, antigamente conhecida como “Califórnia Brasileira” pela cena hardcore, Pedro opina que o circuito paulistano não tem comparação. “Passei minha adolescência inteira tocando guitarra sozinho no quarto. A galera de Santos tinha bandas há uma cota, mas eu não tinha esse contato. Minha primeira banda autoral foi aos 21 anos”, observou.

Nascida e criada em Presidente Prudente, Marina conta que saiu cedo da cidade para se aproximar da cena que sempre admirou. “É um lugar majoritariamente sertanejo. Eu mesma ia a rodeios e shows, mas sempre gostei de rock. Era uma emo fã de NX Zero e Fresno e minha mãe me trazia aos shows em São Paulo. Me mudei com 17 anos dando a desculpa de que ia fazer faculdade, mas queria estar aqui pra estar no rolê. Foi quando conheci a galera e comecei a tocar. Lá é muito limitado, principalmente pro rock, pro indie e toda essa cena.” 

De uma cidade ainda menor, Ingrid conta que o lado artístico encontrou espaço para se desenvolver na capital. “Venho de uma cidade de 7 mil habitantes, então eu era a estranha da cidade. Mudei para Prudente para fazer faculdade e, no ano passado, quando vim para São Paulo, senti a necessidade de colocar minha arte pra fora. Aqui, as pessoas que eu via como referência ficaram do meu lado, o que é bizarro e muito importante”. A cantora ainda lembrou de quando Jair Naves assistiu ao show da banda. “Fiquei petrificada. Ele foi, elogiou e nos gravou.”

“Mas é muito duro. Existem bandas autorais no interior, sim, mas o destino comum é a banda acabar sufocada porque não existem espaços com estrutura para shows. A diversidade cultural de São Paulo, no sentido de ter esses espaços, é a coisa mais gritante que sinto”, analisou Fukuda.

Por trás da faixa: Indelével

Quem é você?
Não reconheço mais
Deixa eu te encontrar
Deixa eu te contar
Que ainda sou eu
Não deixei de tentar
Te fazer ficar
Te fazer ficar
(...)
Gosto de flertar com os perigos da vida
Sempre fui curiosa a respeito dos raios
Enquanto isso, você pressiona suas unhas cor de sangue
Na tecla branca do piano velho
Eu sinto o gosto dos seus traumas
Eu sinto a presença do teu desejo
Você sabe o que significa indelével?
Eu tenho uma granada dentro do meu peito
E ela explode todos os dias
Você sabe o que significa indelével?
Você sabe o que significa indelével?

Composta por Ingrid Rocha na adolescência, Indelével surgiu de uma curiosidade despertada por uma palavra estampada em uma caneta e, quase dez anos depois, deu nome e conceito ao primeiro projeto da banda. “Achei a palavra bonita, significa se olhar no espelho e não se reconhecer, então tem essa dinâmica de entendimento de si. ‘Quem é você? Não reconheço mais’ é como uma conversa consigo mesmo.”

Em referência a nomes como Patti Smith, a canção também incorpora poesia à composição. “O poema do final é um trecho de um sonho que tive. A música originalmente não contava com ele, mas eu tinha vontade de colocar elementos mais falados e foi onde consegui encaixar esse poema. Essa faixa começou numa brincadeira olhando uma caneta e foi o que nomeou o álbum”, completou.

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