“A cena vive um momento próspero”: Edimar Filho detalha a criação do SPIM e o futuro da música independente 

Festival fortalece cena alternativa nacional e fornece conferência para aqueles que desejam aprender mais sobre o mercado

Em 2026, nasce um novo festival em São Paulo. O SPIM (São Paulo Independent Music Festival) traz 24 bandas independentes para fortalecer a cena alternativa da cidade. O evento ocorrerá em 10 casas de shows, dos dias 12 a 16 de agosto: Algo Hits, Bar Alto, Casa Natura, Casa Rockambole, Cine Joia, Fenda 315, FFFront, Hangar 110, La Iglesia e Porta. Os ingressos são vendidos por dia, mas também há um passaporte para toda a programação.

Além da música ao vivo, o SPIM também apresenta uma conferência gratuita com diversos profissionais da cena que ocorrerá durante o final de semana do festival, no período da manhã e da tarde. 

Em entrevista ao Rota Indie, Edimar Filho, idealizador do projeto, revelou detalhes sobre como surgiu a ideia do evento, a seleção das casas, artistas e palestrantes e como ele enxerga a cena independente atual.

Como surgiu a ideia do SPIM?

"Eu venho exatamente desse meio. Era um guri de Goiânia que tinha uma banda e queria participar das coisas, conhecer pessoas, fazer parte. Em Goiânia, há alguns anos, não havia tanta coisa acontecendo. Mas lá existia o Goiânia Noise Festival, um evento tradicional que já deve ter uns 26 ou 27 anos. Eu fui ao Goiânia Noise e vi um monte de bandas do país inteiro tocando. Não conhecia quase nenhuma, só Ratos de Porão, que era quem eu tinha ido ver. 

Ali virou uma chave assim para mim. Eu pensava: ‘Pô, eu também posso ter a minha banda e fazer as minhas músicas e tocar no país inteiro, igual esses caras estão fazendo aqui.’ A partir dali foi um pulo. Fiz amigos, comecei a trabalhar na cena em Goiânia como técnico de som e em estúdio. Fiquei um bom tempo nessa parte técnica e, depois, passei a produzir eventos e levar bandas. 

Participei do festival Bananada em Goiânia — fui sócio por um tempo —, e depois me mudei para São Paulo, onde estou há 10 anos. Sempre trabalhei com bandas e produzi shows por aqui. Sempre foi a parada de que sempre fui mais fã na indústria da música. Eu amo festivais, mas acho ainda mais legal a dinâmica das casas de show, porque é onde as coisas realmente acontecem. As bandas começam e se mantêm nesses espaços. Uma banda que toca muito em festival faz o quê? Uns cinco por ano. O restante do tempo ela passa tocando em palcos menores. É nessa convivência das casas independentes que os amigos se reúnem, montam projetos como sites e selos. Ideias como essas vêm dessa convivência que as pessoas começam a criar a partir de frequentar as casas de shows independentes e de acompanhar essas bandas.

A ideia do SPIM veio da vontade de compilar tudo o que acontece ao longo do ano em várias casas, unindo diversas bandas e selos que lançam artistas. Às vezes, isso acontece de uma maneira meio espalhada. Por isso, quis criar uma narrativa que juntasse esses espaços durante uma semana, contando uma história das casas independentes de São Paulo, o palco por onde essas bandas passam. E de trazer uma conferência que falasse sobre os assuntos voltados para esse mercado."

Como foi o processo de escolha dessas casas? Porque algumas têm propostas diferentes.

"Foi a partir da vivência de frequentar esses lugares. Dentro desse universo eu ouço de tudo, de Belle and Sebastian a Slayyyter. Então, eu acabo indo a muitos shows diferentes. Eles são mais de música indie, mas vivi muitos anos também na cena hardcore e ouvi muita coisa de metal. Naturalmente já frequento esses lugares para ver as bandas tocarem, para ver amigos. Às vezes você nem conhece a banda que está tocando, mas os amigos chamam para ver um show no Porta, por exemplo. E você vai, acaba descobrindo uma banda nova ou conhecendo alguém.  

Poderiam ter entrado mais 10, 15 casas. Tem vários lugares em São Paulo que não estão participando. Tivemos uma limitação de tempo e de braço. Não há uma grande equipe por trás do festival: sou eu mandando e-mails e conversando no WhatsApp o dia inteiro. Faltaram orçamento e estrutura para trazer mais espaços. 

As escolhidas são locais onde vejo acontecer as coisas de que gosto e que o público com os mesmos interesses frequenta. Não foi uma pesquisa, foi algo natural. Quis pegar os lugares de que gosto e criar uma ação conjunta para que todo mundo possa frequentá-los também."

E como foi a curadoria para a escolha das atrações e dos palestrantes?

"É um recorte do que venho ouvindo e achando interessante ultimamente. Tem bandas com as quais trabalho há muitos anos, como o Garage Fuzz, que tem 35 anos de história e é um clássico do hardcore brasileiro. Deve fazer quase 20 anos que fiz o primeiro show deles em Goiânia. O Sugar Kane também: sou amigo dos caras há uns 15 anos, nos conhecemos fazendo show em Goiânia. 

Algumas atrações são amigos de longa data. Outras são super novas e eu nem tive a oportunidade de ver ao vivo ainda, tipo a Julieta Social, que tem show agora e eu vou porque quero ver a banda ao vivo, adorei o disco.

Então a escolha foi um pouco assim também de tipo: ‘quais são as coisas que eu gosto, que eu acho legais, ou quais são as bandas que eu sinto que as pessoas têm que estar ouvindo?’ Mas tudo respeitando a vocação de cada casa. Não funcionaria levar uma banda de hardcore para a Casa Natura Musical, nem faria tanto sentido colocar o Boogarins no Hangar 110, embora pudesse ser divertido ver o público em um espaço diferente do habitual. Tive de respeitar o perfil de cada ambiente.

A conferência vem um pouco da parte de mercado. O pessoal não gosta muito quando falamos nesses termos sobre música alternativa e independente, porque pode parecer pejorativo. Essa ideia não combina muito com a música, que é uma arte que é feita de forma tão autêntica e surge muitas vezes. Por mais pequeno que seja o show, há alguém fazendo fotos, trabalhando no bar, operando o som, criando a arte do cartaz ou programando a casa. São milhares de pessoas no Brasil que vivem desse trabalho. O setor de entretenimento e música movimenta números enormes no país.  O setor de música e entretenimento entrega mais do que o automobilístico no Brasil, por exemplo.

Para a conferência, estou trazendo pessoas que conseguiram construir uma carreira relevante dentro desse mercado, que flertam com essa cena independente. Tenho nomes que vão desde o Beraldo, que é o diretor do Lollapalooza, e que pode parecer ser algo tão longe da música independente, mas para quem acompanha o festival há muitos anos, sempre tem bandas independentes tocando nele. Essa última edição do Lolla foi a que mais teve bandas pequenas mesmo se apresentando, eu acho. Então, por mais que seja um negócio muito grande, existe um flerte com essa cena. Também estou chamando nomes muito novos de pessoas que estão montando selos, que apareceram agora na cena mas que vêm fazendo um trabalho super relevante e super legal, tipo a Yasmin, da Cavaca Records.

Tentei juntar pessoas que poderiam trazer temas que são palpáveis no dia a dia das bandas independentes. Muitas conferências tentam ser abrangentes demais — colocam MPB, funk, forró e rock na mesma mesa — e o debate fica genérico ou fora da realidade. Por isso, foquei o conteúdo especificamente no mercado alternativo e no rock independente. Vários palestrantes são amigos de anos; outros eu não conhecia, mas admirava o trabalho, mandei mensagem no Instagram, me apresentei e fiz o convite. Falei: ‘Meu nome é Edimar, estou querendo fazer essa conferência’ e convidei as pessoas. Então conheci muita gente legal também, mas veio mais de pessoas que eu acho o trabalho muito legal e que têm muito para contribuir para bandas novas." 

Faz quanto tempo que você teve essa ideia? Você se inspirou em alguns projetos fora do país para criar a SPIM?

"Teve muita inspiração. Falei sobre isso em alguns papos sobre a SPIM: nós não inventamos a roda, o formato já existe em vários lugares do mundo. Mas era fundamental trazer esse recorte para São Paulo. Já fazíamos algo parecido no Bananada, em Goiânia, onde a programação ocupava diversos locais da cidade.

O exemplo mais famoso desse formato é o SXSW (South by Southwest), embora ele seja gigantesco. Mas há referências como o Noise Pop em São Francisco, o Great Escape em Brighton, o CMJ em Nova York, o Pop Montreal, o Canadian Music Week e a própria programação espalhada do Primavera Sound. São vários festivais focados na rede de casas de show das cidades.

Fazia tempo que eu queria fazer isso em São Paulo, e o momento atual é propício. Se você olhar a quantidade de casas ativas hoje em comparação com o período pré-pandemia, verá que o circuito cresceu e continua se expandindo. Se eu tentasse fazer isso antes, o esforço para mapear ou incluir locais fora do circuito seria imenso. Agora não: foi praticamente uma fotografia do que já está acontecendo. Para quem frequenta a cena, esses lugares são até meio óbvios. A ideia foi conectar e amplificar tudo dentro de uma mesma narrativa. Este ano decidi tirar do papel. É a primeira edição, um teste sem a obrigação de ser perfeito. Mas até agora tudo indica que vai funcionar bem. Em três semanas  vamos descobrir, estou super animado."

Você planeja fazer outras edições? 

"A ideia é continuar, melhorar aqui e ali, mas quero que a SPIM aconteça todo ano. Agosto é um bom momento, não começou aquela loucura de show internacional que acontece de outubro para frente. Em setembro já tem muita coisa, tem Rock in Rio e The Town às vezes, tem o Balaclava Fest vindo para setembro agora, depois de ser a vida inteira em novembro. 

A primeira edição serve exatamente para entender o que funciona, qual o tamanho ideal do evento e o que podemos abraçar nas próximas fases. Já estou cheio de ideias para o ano que vem que não couberam nesta edição, mas precisei ter calma e focar em entregar a primeira primeiro.  Tive que segurar minha onda também e pensar: ‘calma, deixa eu terminar um primeiro, depois paro para pensar no outro.’ Mas a meta é ser anual, ajudando o público a conhecer melhor a própria cidade e frequentar novos espaços."

A maior parte das bandas do evento, são do estado São Paulo. Isso foi planejado?

"A intenção era ter mais gente, mas fomos limitados pelo orçamento. O festival depende da bilheteria e conta apenas com dois pequenos apoios institucionais, sem patrocínio. Trazer bandas de outros estados custa caro em termos de logística. A meta para as próximas edições é aumentar a participação de artistas de fora, tanto nos shows quanto na conferência. Foi uma restrição orçamentária e de equipe, não por falta de vontade."

Como você vê o futuro dessa cena independente? 

"Sou muito otimista. Estamos no momento mais próspero dos últimos anos. Se você pensar em bandas, temos o Terno Rei, que veio de dentro dessa cena indie e há pouquinho tempo estava tocando para 100 pessoas na Breve, na Pompeia. Em 2025, eles lançaram um disco no Tokio Marine Hall para quase 4.000 pessoas.

Tem várias outras bandas que tocavam para 100 pessoas e estão tocando para 400. O  Dead Fish faz isso há muitos anos, mas tem bandas como Supercombo, ZimbraBad Love – que é uma banda muito nova –  que já estão levando muita gente para os shows. O Chococorn and the Sugarcanes também. É uma banda de molecada e está lotando de jovens no show deles.

Acredito que às vezes temos a impressão de que não está tão próspero, que tem menos coisa acontecendo do que acontecia um tempo atrás. Essa sensação chega porque a parada ficou um pouco individual, as pessoas estão fazendo pouca coisa junto. Antigamente, a necessidade de prensar CDs fazia com que as bandas se juntassem em selos e coletivos, o que dava uma visibilidade de comunidade muito forte. Hoje, com a distribuição digital facilitada nas plataformas, essa dependência diminuiu. Você sobe a música e ela estará no Spotify daqui a 48 horas.

Fica essa impressão, mas não sinto que diminuiu a quantidade de bandas ou o número de pessoas na cena. Tem cada vez mais artistas e casas aparecendo e pessoas criando sites e selos. Os show gringos estão todos lotados, os shows estadios estão todos lotados. As pessoas continuam consumindo rock de bandas de metal de 40 anos atrás em lugares gigantescos, como o Allianz Parque, e também tem espaço para um show do Kneecap. Tem público consumindo as bandas muito novas e tem a galera que sempre vai consumir as bandas mais antigas. 

E tem condição de ser muito mais próspero. A conferência puxa um pouco disso, da  parada de se formalizar um pouco. As bandas muitas vezes estão tocando, viajando pelo Brasil inteiro e não têm as músicas registradas. Elas não estão recolhendo royalties ou ganhando direito autoral porque não simplesmente não pararam ali ainda para colocar aquilo no e-mail e mandar para uma entidade de compositores.

Essa geração nova é muito mais esperta que a minha. Ela trabalha melhor a internet, é mais disposta e já entendeu isso como uma possibilidade de carreira. Quando tinha 20 anos, não existia uma carreira tendo uma banda independente. Hoje existe essa possibilidade, várias bandas estão conseguindo se profissionalizar. Esse número só vai aumentar, teremos cada vez mais bandas vivendo do seu trabalho. E cada vez mais selos onde as pessoas vivem daquilo. Não creio que isso vá diminuir; não acredito muito na parte pessimista do mercado, que fala que existe algum tipo de crise. Essas pessoas estão prestando pouca atenção no que está acontecendo, na verdade. Acredito que o mercado está bem próspero e que os próximos anos serão bem legais."

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