Às vésperas do São Paulo Independent Music (SPIM), banda comenta parceria com a Ludovic, expectativa para abrir o show do New Order e próximo álbum
Às vésperas do São Paulo Independent Music (SPIM), banda comenta parceria com a Ludovic, expectativa para abrir o show do New Order e próximo álbum

É difícil definir o momento exato em que uma banda começa a perceber que as coisas mudaram de tamanho. Para a Jovens Ateus, talvez ele esteja acontecendo agora. Depois de anos construindo seu espaço na cena independente, o grupo atravessa uma fase em que os próximos passos parecem cada vez maiores: os shows se multiplicam, Vol. 1, lançado em 2025, consolidou uma identidade que já vinha sendo desenhada desde os primeiros trabalhos e, em novembro, eles vão abrir para uma das bandas que ajudaram a tornar possível a música que fazem hoje, o New Order.
A ascensão acontece justamente quando a banda começa a olhar para além daquilo que a trouxe até aqui. O post-punk continua sendo o ponto de partida, mas já não define tudo o que eles querem fazer. Enquanto o público cresce, a banda também começa a testar os limites da própria identidade, pensando em como amadurecer a sonoridade sem perder a espontaneidade que marcou seus primeiros anos.
Formada no Paraná por Guto Becchi (vocal), João Manoel Oliveira (guitarras), Fernando Vallim (guitarras), Bruno Deffune (baixo) e Antônio Bresolin (sintetizador e bateria), a banda começou as atividades em 2020, em meio à pandemia. Seis anos depois, em São Paulo, eles seguem uma agenda intensa de shows pelo país enquanto trabalham em novas composições no estúdio, vivendo uma fase em que consolidar o espaço conquistado também significa não se acomodar nele.
Os próximos meses serão marcados pela participação no São Paulo Independent Music (SPIM) ao lado da Ludovic, pela ida ao festival Bananada, em Goiânia, no fim de agosto, e pela abertura do show do New Order em novembro. Em entrevista ao Rota Indie, a banda contou como está a expectativa para essa sequência de encontros nos palcos.
“A ideia era fazer o show com a Ludovic desde o começo, quando o Edimar nos chamou para participar do SPIM. Foi uma reação foda porque escutei muito Ludovic. É uma banda seminal, foi influência pra muitas bandas. E tô muito empolgado para esse show. Adorei o disco novo que saiu agora. Ainda mais na Rockambole, que é uma casa de show maior”, contou Bruno.
“Nos sentimos super honrados de dividir a noite, ainda mais no show de lançamento do disco deles, no festival absurdo que o Edimar tá encabeçando e com a nossa equipe toda lá. É o cenário perfeito para que seja uma noite muito foda”, acrescentou João.
Em novembro, eles sobem ao palco antes de ninguém menos que Bernard Sumner, do New Order e ex-Joy Division, um dos pilares do gênero que construiu a Jovens Ateus. “Vou falar para vocês que tento nem pensar muito nisso agora, vou deixar para ficar ansioso mais em cima da hora. Quando vimos a notícia, ficamos malucos. Como não ficar? É inacreditável. Papo de passar mal por uma semana. Agora, foi acalmando e tentamos não pensar muito, senão não dormimos à noite (risos)”, disse Guto.
Eles ficaram sabendo da notícia durante uma reunião com a Balaclava, sua gravadora e também produtora do show. “Não sabíamos que a banda viria e chegou uma mensagem no grupo do WhatsApp que temos com o Dotta e o Farah: ‘Vocês podem fazer uma reunião agora?’. Nunca fazemos reunião com todo mundo e sabíamos que tinha algo. E aí falaram o que era e eu, pelo menos, fiquei em choque até entender”, lembrou Bruno.
“É um absurdo pensar nisso, na verdade. Mas, ao mesmo tempo, a nossa ansiedade tá fragmentada em vários pontos. Tem o New Order e outras mil coisas que, em breve, se tudo der certo, vamos conseguir soltar”, completou o vocalista.
De volta ao estúdio após Vol. 1 (2025), seu álbum de estreia, eles trabalham em novas composições do próximo disco, ainda sem previsão de lançamento. “Não tem um disco pronto, mas estamos no processo de gravar, evoluir a nossa sonoridade e experimentar coisas novas, que soam diferentes, mas ainda são a cara da banda”, comentou Bruno. Ele também destacou experimentações com novos instrumentos, como o violão e elementos de bateria.
João também falou sobre a evolução das composições: “O caminho natural é amadurecermos como banda. No sentido de procurar algo mais ousado, talvez mais para nós mesmos do que para o público geral. Buscamos ter mais pontes, algum tipo de refrão. É um sinal de amadurecimento de uma banda que arriscava pouco, a Jovens Ateus sempre foi muito simples.”
Mesmo com a expectativa do público para o próximo trabalho, eles parecem encarar o momento com tranquilidade, sem deixar que a vontade de evoluir vire uma pressão para superar o que já fizeram. “Quando você vê a linearidade de uma banda, no primeiro disco não existe um compromisso de soar tão elaborado, com uma mix e uma master tão bem feitas, pode ser mais raw. No segundo disco, não é exatamente uma pressão porque fazemos o que acreditamos, jamais iríamos soltar algo que a gente não ame”, disse Guto.
Inicialmente, Vol. 1 estava sendo produzido por João, mas Roberto Kramer – que também produz para bandas como Terno Rei, Rancore e outros nomes da Balaclava Records – acabou assumindo a mixagem e masterização. A parceria acabou levando o grupo a regravar todo o projeto, que ganhou mais texturas, reverberação e timbres mais limpos, ainda mantendo a sustentação e a pressão que moldaram a estética do álbum.
“Foi muito bom termos feito o disco com o Rob, evoluiu o nosso critério de como encarar a produção de uma música. Ainda não sabemos se o próximo álbum vai ser com ele ou com outro produtor, mas sinto que ficamos um pouco mais chatos com esse tipo de coisa, queremos ter mais cuidado com a produção”, avaliou Bruno.
Essencialmente, a Jovens Ateus é uma banda de post-punk, mas a discussão sobre gêneros musicais e seus limites poderia se estender por páginas de texto. Em vez disso, o grupo prefere aproveitar a visibilidade que vem ganhando para apresentar novas possibilidades ao público.
“Não ligamos muito para esse lance [de rotulação] porque a música é muito abrangente. Tem milhares de bandas fazendo coisas intituladas como pós-punk que não necessariamente soam como as referências dos anos 80. É difícil não associar porque é a nossa raiz, mas tanto faz se viermos a fazer uma coisa que talvez não soe tão purista quanto o Gang of Four ou o Joy Division”, começou João.
“Sempre vai ter alguém falando que é muito por isso, que é pouco por isso, que é shoegaze porque tem reverb e chorus, mas no geral não nos interessamos pelos rótulos e não ligamos se as pessoas considerarem pós-punk ou não. Temos as nossas referências do gênero e é isso”, continuou o guitarrista.
“Tem muita coisa a ser explorada dentro do que já foi criado e o grande barato, às vezes, é pegar timbres do pós-punk, por exemplo, e trazer referências de outros gêneros que consumimos. Também não me surpreenderia se, sei lá, o nosso quarto álbum fosse de hard rock. Vamos fazer o que estamos a fim e o que achamos que vai ser legal”, pontuou Guto.
A melhor forma de conhecer com mais profundidade o repertório de um artista é vivenciando uma apresentação ao vivo, onde a energia e a troca com outros ouvintes ampliam o universo da obra. Os apelidados “moshs tristes” fazem parte das apresentações da Jovens Ateus, um resultado da mistura entre melancolia e visceralidade das performances. Questionados sobre a parte favorita do show, eles escolheram os melhores momentos:
Bruno: “Eu gosto muito do que estamos fazendo no início do show, começamos com ‘Cedo demais’ e depois vêm ‘Espelhos’ e ‘Motocross’. Essas três juntas ficaram uma sequência boa de tocar. Mas a favorita é ‘Cedo demais’.”
João: “Eu gosto muito de tocar ‘Espelhos’ ultimamente e ‘Cedo demais’. Me divirto fazendo o solinho do final.”
Guto: “Gosto de ‘quien eres’, é uma parte alta do show, e ‘Saboteur Got Me Bloody’, que só tocamos quando podemos porque o batera precisa estar junto. É o que a torna especial.”
14 de agosto: São Paulo Independent Music (SPIM), na Casa Rockambole com Ludovic
21 de agosto: Goiânia, no Festival Bananada
25 de novembro: São Paulo, no Espaço Unimed com New Order
© 2026 Todos os direitos reservados