Vocalista do Boogarins comenta sobre aprendizados com shows solo
Vocalista do Boogarins comenta sobre aprendizados com shows solo

Em 2026, Dinho Almeida retomou um projeto mantido em segundo plano nos últimos anos: a carreira solo. Conhecido como vocalista da banda Boogarins, o artista já rodou o Brasil e o mundo com o grupo, considerado um dos maiores fenômenos do indie rock psicodélico nacional. Agora, em uma fase de maior maturidade, ele decidiu abrir espaço para sua outra faceta artística com o lançamento do EP Águas Turvas.
Após uma temporada de apresentações intimistas no espaço Centro da Terra, o músico cai na estrada ao lado de Ottopapi com a +um Tour. Juntos, eles passarão por São Paulo (Cortina), Sorocaba (Asteroid), Belo Horizonte (Autêntica), Goiânia (Shiva), Brasília (Infinu), Uberlândia (Espaço Uberbrau) e Campinas (Lola Bar).
Em entrevista ao Rota Indie, Dinho reflete sobre o projeto paralelo e as sensações de subir ao palco desacompanhado, uma experiência bem diferente da rotina a que está habituado.
A natureza serviu de inspiração para alguma faixa no EP?
“Cara, sempre é. Acho que todos nós do Boogarins temos essa conexão. Mas sinto que essa coisa do ‘Águas Turvas’ é puramente essa ideia de rio e água. No Boogarins também, a banda tem o nome de uma flor, mas não chega a ser algo muito hippie mil grau. De qualquer forma, atualmente, eu dou valor em qualquer coisa que não é tão dura igual a cidade. Acho que a minha música, e o que eu vejo, o que eu boto pra fora, com certeza vai estar mais relacionado com a natureza.”
Qual é a sua opinião sobre o consumo de música atual e a volta para o analógico? Vimos que você fez um zine do EP.
“O que fizemos com o Boogarins ou o que eu estô fazendo com o EP, nós não estamos inventando a roda. A banda sempre bate muito nessa tecla. Fiz um zine agora e é só papel dobrado, o movimento dessa arte em si é muito maior do que eu. Esse meio nosso indie está muito deslumbrado com coisas que já estão rolando no punk faz mil anos. Eu vi muita gente compartilhando o textão do James Blake, falando, “gente, ele descobriu algo”, quando nem é verdade. Mais do que falar do streaming, sinto que a percepção das pessoas está meio deturpada, não sei se é culpa do streaming, eu também amo, sou fazedor de playlist. Mas agora existem umas paradas de streaming gourmet, que eu acho meio confuso.
Tudo é sobre consumo, eu vendo minha música, também quero fazer dinheiro com isso, acho que é legal as pessoas terem dinheiro pra consumir música, mas acho que é muito atravessado. Parece que muita gente quer se aproveitar… Tudo bem, é um bagulho que dá dinheiro, as pessoas precisam disso, e não é como se fosse ajudar a acabar com o show ao vivo. Passamos por uma pandemia e vimos que a experiência do ao vivo é a maior parada que faz a nossa cabeça mexer. Não dá pra viver sem isso.
Então, como eu vejo essa situação do streaming, se outras bandas vão voltar para o analógico, eu só fico mais feliz de estar vendo bandas novas incríveis. Acho que elas estão entendendo que a estrada é o show que faz as coisas. Gosto de saber que as bandas estão cada vez menos sofrendo com qual post eu vou fazer esse dia, e pensando mais em como eu vou botar 200, 300 pessoas pra ver meu show. Se isso está associado ao post, eu não sei. Mas eu espero que cada vez esteja mais associado à música, e não ao streaming, não à distribuidora que trabalha com você, etc. E é muito ruim quando aparece umas figuras com ideal de messias com outra lógica de pensamento.”
Quais foram os aprendizados da temporada no Centro da Terra? Você tocou com vários outros artistas, sente que isso te ajudou a construir repertório?
“Me deu coragem. Eu tenho muita vergonha de fazer isso sozinho. Não fico nervoso pra show nenhum se eu estou com os meus amigos que são a minha banda, não tenho medo. Até o terceiro show da temporada que foi improviso e eu deveria estar nervoso, eu não estava, porque tinha pessoas que eu confio e amo do meu lado. Show sozinho é confuso. Mas eu estou cada vez mais aprendendo que vai ter pessoas que eu amo vendo.
Toquei outras vezes sozinho também, mas vai ser diferente. De qualquer maneira, estou feliz, a temporada do Águas Turvas me deu muita luz, ideias para canções, teve músicas que eu só terminei pra conseguir fazer lá. Tem gente que fala assim, ‘ah, não tenho repertório pra isso.’ Eu acho que a temporada me deu repertório de saber como me sinto. Eu consegui tocar sorrindo, e não travado, com medo.”
Qual é a expectativa de realizar apresentações com o Ottopapi, que possui muitos anos de carreira a menos do que você?
“Não acredito muito nessas diferenças. Tem pessoas que são mais associadas com a cidade, e ele é um paulistão. Isso é massa, eu amo ele, eu gosto do rolê dele e da energia que ele coloca nos projetos, da lógica da Seloki, lembra muito o Ultravespa, minha primeira banda, que eu toquei uma música hoje.
Teve um show dele que eu fui DJ, e aí eu joguei cerveja pro alto, porque lá em Goiânia a gente jogava cerveja nas bandas que faziam rock. Na hora em que eu joguei, uma menina do meu lado ficou muito bolada com isso, ela ficou com ódio. E eu olhei, eu falei, ‘ué, mas não é show de rock, não?’ Somos criados diferentes nesse sentido.
O Lúcio Ribeiro, os caras da Mais Um Hits falaram: ‘ah, o Dinho vai trazer um show de MPB’. É show, rapaziada. Nós fazemos o que damos conta e as pessoas enxergam o que elas conseguem ver.”
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