Com novo EP na estrada, o quinteto fala sobre o processo criativo por trás das composições, a turnê pelo Brasil e os limites entre underground e mainstream
Com novo EP na estrada, o quinteto fala sobre o processo criativo por trás das composições, a turnê pelo Brasil e os limites entre underground e mainstream

“Exclusive os Cabides é uma merda”, diz a camiseta. A frase poderia soar como autodepreciação, mas funciona mais como um cartão de visitas para a banda catarinense: bem-humorada, espontânea e sem pressa de se levar a sério. Depois de ganhar projeção com o elogiado Coisas Estranhas (2024), o grupo voltou com o EP Feliz e triste ao mesmo tempo (2026) e apresenta as novas canções no dia 4 de julho, no Bar Alto, em São Paulo. O show faz parte da celebração dos quatro anos do Rota Indie ao lado dos paulistas boasorte.
Em entrevista, Antônio dos Anjos (voz e percussão), Carolina Werutsky (bateria) e Maitê Fontalva (voz e baixo) falaram sobre o processo criativo, os bastidores do novo EP, a relação com a cena independente e a TV Kbids. Também compõem a banda João Pretto (voz e guitarra) e Eduardo Possa (voz e guitarra).
Enquanto o último álbum explorou mais camadas, incluindo bongo, xilofone e rabeca, o novo EP conta apenas com bateria, baixo, guitarra e vocais. “Quisemos realmente deixar o mais próximo do som mais cru e visceral que fazemos ao vivo. A onda atualmente é essa, mas certamente quando a gente voltar para estúdio para fazer um trabalho mais longo, talvez com músicas não tão focadas nessa onda rápida, ideias de instrumentos complementares surjam”, disse Maitê.
“Quase rolou um cano no EP. Mas, por conta do tempo não conseguimos. Não deu para cortar o cano de PVC no tamanho correto, porque ele tava num tom fora. Ainda assim, teve uma descarga de banheiro em Notlin vs. Smellectron, uma surpresa ali no final”, completou Carol.
Para o próximo projeto, a ideia é ter mais tempo de produção para poder explorar outros caminhos. Teclas, sopros, ou até uma orquestra são ideias que habitam o imaginário dos integrantes.
Criada em colaboração entre João, Antônio e o designer Gustavo Ramires, a capa do EP traz uma minhoca com expressões felizes e tristes em referência ao título do projeto, além de texturas de tecidos jeans, flanela e costuras em zigue-zague, em uma estética que fica entre o vintage e o trash.
As letras, em grande maioria atribuídas a João Pretto, são outro elemento central na identidade dos Cabides. Frequentemente associadas ao senso de humor, elas falam sobre temas cotidianos e, sem intenção, caminham para um universo inventivo e onírico em alguns momentos.
Justamente por terem o cotidiano como maior fonte de inspiração, é comum temas se repetirem nas composições. As bicicletas, por exemplo, aparecem tanto na própria faixa Bicicleta quanto em Rua da Lua Cheia e em Laura e Os Dois Gatos. “É fácil não perceber o quanto tu pode repetir sobre bicicletas nas músicas. A não ser que você faça um projeto com três músicas que falam sobre bicicleta, que é quase o nosso caso.”
“Também temos isso sobre gatos, com menções em Gato Preto e Laura e Os Dois Gatos [além de Espirros Infinitos e Gato Chinês], e rinite, em Espirros Infinitos e Luminária de Lava. Acho que somos uma banda um pouco monotemática: rinite, bicicletas e gatos”, notou.
Como um atalho descoberto por engano, as melodias costumam surgir nos momentos de falha: a banda tenta tirar uma música de ouvido, sem cifras ou partituras, e, entre um deslize e outro, acaba nascendo uma nova composição.
Acordar e espirrar
São coisas que eu não quero mais lidar
Me estressar ou me irritar
Pelos espirros que não dão pra controlar
Rinites são meus maiores inimigos
Carinho nos
Pequenos felinos
Podem causar
Espirros infinitos
Oh, oh, oh.
“Muito provavelmente eu tava tendo alguma crise de rinite sinistra em 2021, era pandemia e eu não fazia nada. Tinha medo da banda morrer, na época fizemos até uma rádio como nosso passatempo ao invés de ensaiar e fazer shows. Tava praticando mais o violão, tentei tirar uma música do Pixies, mas toquei tudo errado e acabou saindo Espirros”, lembrou Antônio.
De acordo com Carol, a faixa quase não entrou para o projeto. “Tenho muitas memórias de gravar Espirros Infinitos. Foi a última música que decidimos gravar, entrou ‘de gaiato’ na gravação. Tocamos super pouco, mas o Antônio encheu nosso saco pra gravarmos. Até realmente sair o take, eu não tava satisfeita com nada que eu estava fazendo na bateria, então não foi uma música fácil, da minha parte pelo menos.”
Eles ainda lembraram de outra faixa do último álbum: “Foi que nem Siris paradinhos em um cantinho bem de boa, do Coisas Estranhas. Eu tentei tocar Grilos, do Erasmo Carlos, mas saiu tudo errado. Nisso, veio uma melodia na cabeça e, por acaso, saiu rapidamente essa música. Fiquei bem feliz. Na época, pensei: ‘Ufa, agora posso ficar dois meses sem escrever uma música’”, disse o cantor.
Em maio, a Exclusive os Cabides começou uma nova etapa pelo Brasil na turnê do EP, incluindo as primeiras apresentações da carreira no Nordeste, que empolgam bastante o grupo. “Estamos fazendo música, vamos para novos lugares novos. Ano passado tocamos em um monte de lugares pela primeira vez e esse ano mais ainda. Tá sendo divertido conhecer novas cidades e novas pessoas. Também é legal voltar em lugares que já tocamos antes e ver o público duplicando”, comentou Maitê.
Além de conhecer novos lugares, o quinteto volta a São Paulo em julho após um show no lançamento de Feliz e triste ao mesmo tempo. Ingressos estão disponíveis aqui.
“A cidade é muito grande, então nos dá a chance de ter uma plateia completamente nova toda vez. Somos uma banda que gosta muito de fazer show, então a ideia de estar no início de uma turnê e saber que temos muitos shows até o fim do ano nos faz bem feliz”, disse a baterista.
Desde 2025, a maior parte das atividades da banda é registrada na TV Kbids, uma série de vlogs caseiros publicados no Youtube. As gravações surgiram de um gosto de Carolina Werutsky por documentar momentos comuns de seu dia e acabaram se transformando em uma plataforma de acervo das turnês e das casas de shows pelo país, além de ser uma forma de aproximar os fãs.
Eles mesmos costumam assistir aos vídeos nas horas vagas. “Minha memória é muito fraca, então quando eu revejo os vídeos da Carol, às vezes me pego dando umas gargalhadas idiotas. É superdivertido”, contou Antônio.
“Sem dizer que, se quiséssemos um documentário com várias imagens nossas no futuro, já temos um acervo enorme. Inclusive prestes a se perder porque meu HD deu problema, ou seja, todo o material bruto da TV Kbids de uns dois ou três anos está numa linha fina da morte. É muito surreal, mas preciso arrumar isso”, acrescentou Carol.
Um dos maiores dilemas da música independente é o equilíbrio entre a liberdade criativa e o sucesso comercial. Por um lado, os artistas underground têm mais voz durante o processo de composição, produção e distribuição de seus projetos, mas o contraponto é o acúmulo de funções e limitações financeiras. Ainda assim, em um mundo hipotético onde esses dois lados não precisem competir na balança, a banda se permite sonhar com a fama em larga escala, sobretudo com os retornos dessa visibilidade.
“Às vezes me pego pensando nisso porque é tão cafona às vezes. [O mainstream] fica tão abrangente que vira uma coisa meio sem identidade. Vira um grande nada. Acho que não faz parte do nosso perfil, falando particularmente de nós como banda, querer pular etapas e só ir pelo caminho que parece mais fácil, de mais sucesso, de mais retorno, seja lá do que for. Todo mundo já viu esse filme antes”, começou Carol.
“Mas, acho que é sempre bem-vinda qualquer proposta, desde que não tenha cara de furada e que não esteja apoiando alguma merda gigante, talvez. Sim, a ideia de ganhar dinheiro sempre me agrada, ainda mais no cenário da música. Acho que me vendo bem facinho (risos)”, continuou Antônio.
Talvez o momento de maior visibilidade do grupo tenha sido há um ano, quando eles gravaram com Roberta Martinelli na TV Cultura. Assim como o Bala Desejo e mais recentemente Vera Fischer Era Clubber, a “furada de bolha” conquista novos públicos, mas também desagrada outros.
Segundo Maitê, as propostas que abrirem caminhos para levar a música até mais pessoas são bem-vindas. “Acho bem irreal, porque nós somos uma banda de rock e o mainstream não tem mais muito espaço para isso. Mas, eu aceitaria ter que sair de boné e óculos escuros na rua por causa de paparazzi, dar vinte autógrafos no meu caminho para a padaria, sem problemas”, avaliou.
Ela adicionou: “O mais importante seria poder continuar fazendo os nossos shows para cada vez mais pessoas, lotar estádios, tocar em todas as capitais do Brasil, ganhar dinheiro, tomar cerveja, não nos odiar. São coisas que a gente fica se permitindo sonhar e pensar se o mundo vai mudar ou não.”
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