Vera Fischer Era Clubber olha para dentro sem abandonar a pista em “Veras II”

Segundo álbum do quarteto tem participações de Kiko Dinucci, Augusto Feres e Katy da Voz e as Abusadas

Em Veras II, a Vera Fischer Era Clubber encontra novas formas de explorar um universo que já vinha sendo apresentado no primeiro disco. O segundo álbum do quarteto chega nesta quinta-feira (17) mais introspectivo, sem deixar para trás a vocação clubber e o gosto por letras que divertem, mas revelam uma camada mais densa conforme as faixas avançam.

Sem deixar qualquer timidez tomar conta, Crystal Duarte, Malu, Pek0 e Vickluz falam sobre calcinha gozada, buceta gay, pau feminino, desejo, frustração e excessos. Porém, apesar de parecerem superficiais num primeiro momento, as letras abrem espaço para uma série de interpretações diferentes. Esse é o grande barato do disco, de acordo com as próprias artistas. 

Em entrevista ao Rota Indie, elas falaram sobre o universo criado no segundo álbum, incluindo as parcerias com Katy da Voz e as Abusadas e Kiko Dinucci, e a vontade de ocupar um espaço em que experimentação, humor e densidade possam coexistir sem precisar caber em uma única leitura.

“Quero Que Se Foda”, que já vinha sendo apresentada ao vivo, inicia a obra com uma mensagem em alto e bom som: ouve quem quer, entende quem está disposto. “É um mantra e é necessário para tudo o que está por vir. É a chegada perfeita. Repete três vezes em frente ao espelho que o álbum começa (risos)”, disse Crystal.

“Acho que a letra acaba sendo uma resposta para a viralização que rolou a partir do Cultura Livre e essas falas que chegam até nós, do tipo: ‘O que é isso, Hermes e Renato?’ Esse bando de… sei lá, mentes meio quadradas. Quero que se foda, sabe?”, completou Pek0. Inclusive, elas tentaram apresentar a faixa durante as gravações do programa, mas a letra acabou sendo cortada pela produção.

Seguindo o disco, “Feitiço” parece diminuir o ritmo, mas isso muda em “Amor de Anjo”, com Kiko Dinucci. A parceria surgiu de um pedido do próprio cantor, que já acompanhava o trabalho das Veras: “O Kiko me perturba para ter alguma coisa com essa música desde que eu postei o primeiro rascunho da letra.” Aliás, elas contaram que a faixa chegou a ser oferecida a Marina Lima, mas a participação acabou não indo adiante.

“É O Pico, É O Ápice” mergulha de cabeça na estética clubber, abrindo caminho para a provocante “Buceta Gay”, que atravessa a beleza queer em uma faixa feita para dançar. “Grito, Dano e Possessão” traz um dos momentos mais acelerados do disco, como aquele momento de ápice da festa quando a pista de dança parece pegar fogo. 

Já “Prantos” leva o álbum para um território mais introspectivo e emocional. “Vesúvio” é uma explosão de sentimentos de uma pessoa sobrecarregada de emoções, enquanto “Chic Chic” apresenta, ao mesmo tempo, um beat mais agressivo e uma estética sonhadora e atmosférica.

Por fim, outra colaboração que surpreendeu foi “Calcinha Gozada”, lançada como primeiro single, com o trio Katy da Voz e as Abusadas. A faixa encerra o álbum com uma batida eletrizante e altíssima dose de irreverência. “A Katy da Voz colou no nosso show da Tesãozinho e falou que elas eram muito fãs. Mas nós é que somos fãs delas. A guia de Calcinha Gozada já existia, nós mandamos e elas entenderam tudo de cara. Não tinha pessoa melhor para colocar ali. Elas existiram muito antes de nós, então, ter essa chancela das Abusadas foi incrível.”

Pensando em próximos projetos, elas listaram algumas parcerias dos sonhos: Pabllo Vittar, Anitta, Urias, Ebony, Linn da Quebrada, Juçara Marçal, Letrux, Evinha, Cansei de Ser Sexy e Sophia Chablau, entre tantas outras. Marina Lima também continua sendo um desejo. 

“Tem gente muito fina que nós ficamos até com vergonha de falar que queríamos fazer algo, tipo a Liniker”, comentou Vickluz. “Liniker, meus pais são muito fãs do seu álbum, é o álbum de romance deles. É muito sério”, apelou Crystal. 

O grupo descreve o primeiro disco como um filme, uma forma de analisar e compreender as vivências dos vinte e poucos anos, enquanto o segundo é como uma viagem através do espelho. “Os dois são densos, mas o Veras I vem de um lugar menos explicitamente denso. Se você só quiser entender aquilo como uma diversão, como uma mensagem engraçada, você passa batido. Se quiser pegar a densidade do bagulho, você pega. Agora, o Veras II já é mais na cara nesse sentido da densidade. Já é menos brincadeira, apesar de a brincadeira estar ali, porque eu brinco sério pra caralho. Todas nós”, comparou a vocalista. 

Produzido por Augusto Feres e lançado pela Palatável Records, Veras II aposta em uma sonoridade mais espacializada e condensada. Os sintetizadores, ainda que mais leves do que no primeiro disco, mantêm a assinatura da banda. Segundo Vickluz, o objetivo foi experimentar algo novo. “O Veras II trata de assuntos até mais delicados do que o primeiro, mas tem uma leveza no instrumental, num teclado que se aproxima mais do que apresentamos em ‘A Gata Agora’, por exemplo. Isso aparece em várias músicas do segundo álbum. Então, é uma nova forma de trazer essa nossa poética.”

Pouco mais de uma semana antes do lançamento, elas apresentaram o disco na zona oeste de São Paulo entre convidados e fãs inscritos por meio de um formulário divulgado nas redes sociais. Naquela noite, a pista do Porta foi preenchida pelas batidas contagiantes e energia incomparável de Crystal no microfone. Foi também um termômetro para a recepção do disco, cujas expectativas dividiram sutilmente as opiniões do grupo. 

“Eu acho que a recepção vai ser muito calorosa porque as pessoas estão com muita fome. O Veras I é um álbum redondo e curto. Só temos esse material, até por ser um projeto autoral, mas o show sempre acaba com as pessoas pedindo mais. Agora, vamos ter repertório para dar esse tempo que as pessoas querem ter conosco e com esse som que tem uma assinatura tão específica. Ficamos felizes em poder prolongar a experiência e curtir com as pessoas, é para isso que estamos aqui. Quanto mais tempo no palco, melhor”, opinou a vocalista. 

Já Malu tem dúvidas sobre a primeira reação. De qualquer forma, o grupo está preparado para o que vier e, sobretudo, sente muito orgulho do resultado. “Eu já não sei como vai ser a recepção. Estou nervosa, mas ontem [a audição] foi foda. Fiquei mais tranquila, as pessoas já saíram cantando.”

Eu quero que as pessoas entendam, que elas consigam se relacionar e pegar outras perspectivas a partir disso. Para mim, esse é o bagulho: atravessar as pessoas. E ter atravessado um grupo de pessoas ontem já significa o mundo. Espero que isso continue porque tem um suor e um sangue muito genuínos de todas nós.

Nem tudo precisa ser entendido

Assim como vários projetos underground, o conjunto causa estranhamento quando fura a bolha. Porém, as reações reforçam justamente que o experimental não é para todo mundo — e que bom! Em vez de gastar energias em combater o hate que a viralização trouxe, elas canalizam essa força para acentuar ainda mais as particularidades que tornam o projeto tão singular.

“Nós poderíamos até estar no mainstream, mas é um contato muito bruto toda vez que passamos por ele. É muita raiva e violência das pessoas que não são desse nicho. São pessoas que escolhem outro tipo de vida e sentem que têm que odiar quem consegue viver de outras formas. Essa massa de ódio é muito doida”, comentou Crystal.

“Nenhum som é para preencher todas as caixinhas. Até por isso você tem pessoas de lugares diferentes poetizando sobre coisas diferentes. Ninguém nunca vai entender tudo, nem tudo é para ser entendido. Eu acho que é um equívoco do próprio mercado porque quando você agrada todo mundo, tira o tempero. É impossível agradar todo mundo”, afirmaram.

Questionadas se elas se sentem compreendidas pelo público, as artistas devolveram a pergunta. “Fiquei pensando no que você falou, se as pessoas entendem as Veras, mas não sei se é esse o caminho. Não sei se as pessoas precisam efetivamente entender. Eu acho que elas podem ter a própria interpretação. O bonito do projeto é justamente ter esse espaço para você interpretar o que quiser”, começou Pek0.

“De certa forma, o que conduz as Veras é esse lugar de deixar as pessoas entenderem e terem sua própria interpretação. Aqueles que têm a própria interpretação estão entendendo. Não tem um certo a entender.

Se você não se identifica, então não venha. Tem outros artistas por aí falando sobre outras coisas e tá suave. A nossa janela não é como todas as janelas. Estamos apontando a vista de apenas uma janela e, se você quiser vir olhar, tem uma paisagem. Mas tem que saber ver.”

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