Kiko Dinucci lança “Medusa”, com show de estreia em São Paulo

Em ‘Medusa’, Kiko Dinnuci experimenta sonoridade que mescla o romantismo do cancioneiro brasileiro com a bruma sonora do shoegaze

Seis anos após o lançamento de Rastilho (2020), o músico, compositor e produtor Kiko Dinucci retorna com seu mais novo álbum de estúdio, intitulado Medusa. O trabalho, definido pelo próprio artista como "um disco de amor, fantasmas e bichos", marca sua entrada ao casting do Selo RISCO e conta com colaborações de nomes como Maria Beraldo, Cadu Tenório, Sophia Chablau, Juçara Marçal e Negro Leo. O artista apresenta as faixas ao vivo em duas datas em São Paulo, dias 26 e 27 de setembro, no SESC Pompeia.

Dono de uma discografia polifônica, Kiko tem suas origens atreladas à cena do hardcore de Guarulhos. Sua transição para a música popular brasileira veio depois, com a formação do Bando Afromacarrônico e o início de sua colaboração com Juçara Marçal, no disco Padê (2011). Parceria essa que daria frutos na banda Metá Metá, que – unindo as raízes afrobrasileiras do samba e afoxé à estética DIY do punk – viria e se tornar influente nome na cena da Nova Vanguarda Paulistana, incluindo colaborações com veteranos como Elza Soarez - A Mulher do Fim do Mundo (2015) - e Jards Macalé  - Besta Fera (2018).  

É dessa miríade de influências que nasce Medusa. O álbum evoca o enxame de guitarras do pós-punk de bandas como Dinossaur Jr., Sonic Youth e My Bloody Valentine, aplicado ao cancioneiro brasileiro e à música romântica de Roberto Carlos dos anos 70, em uma experimentação batizada pelo artista de “exugaze”.  

Dentre as faixas de destaque, o álbum conta com diversos colaboradores: Sophia Chablau soma na composição da dolorida e barulhenta Água Viva. Negro Leo se junta a Kiko para compor Claudia, Frota e Eu (uma espécie de releitura antropofágica de Madonna, Sean and Me, do Sonic Youth). Crystal Duarte (vocalista da banda Vera Fisher Era Clubber) homenageia o universo lynchiano em Loira Palmer. Maria Beraldo se une para compor e interpretar o shoegaze romântico e melancólico de Cascuda. Romulo Fróes colabora na composição de Como Foi? (uma espécie de Roberto Carlos corrompido pelas interferências de Luas Pires nas fitas e Arthur de Faria na orquestração). Cadú Tenório, Podeserdesligado e Paulo Kishimoto expandem a sonoridade de Medusa com samplers, sintetizadores e recursos eletrônicos, enquanto Juçara Marçal cria texturas vocais não convencionais, entre outros.  

Misturando o onírico e o dissonante, Medusa se utiliza de pequenos contos de amor urbanos para traduzir a “assombrologia” de uma São Paulo sem futuro. Tal aspecto fica ainda mais pungente quando analisado ao lado do trabalho audiovisual de Kiko, incluindo seu filme Breve em Nenhum Cinema (2015), onde, bebendo do Cinema da Boca do Lixo de Sganzerla, dois personagens errantes caminham por uma São Paulo devastada pela especulação imobiliária à procura de salas de cinema, mas só encontram igrejas evangélicas, cinemas pornô, estacionamentos e ruínas. 

Essa experimentação audiovisual dá à luz ao videoclipe da já mencionada faixa Como Foi? – uma espécie de single de lançamento do álbum, disponibilizada previamente no Youtube. Filmada em película Super 8, em parceria com Mariana Metri, o vídeo traduz visualmente a atmosfera densa e poética da canção, em um resultado que o próprio artista define como uma "declaração de amor deteriorada". As locações no centro antigo e os tradicionais bairros da Barra Funda e do Bixiga servem de pano de fundo para uma narrativa marcada por grafias urbanas, viadutos, sol e concreto. 

Edit Template

© 2026 Todos os direitos reservados