Varanda deixa o sonho tomar conta do segundo álbum

Segundo disco nasceu sem um conceito definido e acabou costurando fantasias, memórias e estranhamentos no ano mais movimentado da banda

“Às vezes um sonho pode ser um planeta inteiro ou uma canção ou uma cama com travesseiro de pluma de ganso ou um apagão ou a grande luz no meio desse grande túnel no qual estamos inegável infalível incansavelmente passageiros” (2026). Todas essas 40 palavras compõem o título do segundo disco da Varanda, que vem rodando o país com uma sequência intensa de shows em 2026.

A mais nova criação de Amélia do Carmo (vocais) Augusto Vargas (baixo e vocais) Bernardo Merhy (bateria) e Mario Lorenzi (guitarra) transforma esse imaginário dos sonhos no fio condutor de um disco que, na verdade, foi encontrando seu conceito no meio do caminho. Ao Rota Indie, o quarteto refletiu sobre a construção do álbum, as participações especiais e os caminhos que levaram a banda até esse novo momento.

Em março, nos bastidores do Lollapalooza Brasil, Amélia revelou seu talento em decorar longas frases ao recitar as 90 palavras de “When the pawn…” (1999), de Fiona Apple, durante uma entrevista ao TMDQA!. O sucesso do vídeo e a inspiração na estadunidense resultaram em um movimento parecido para o novo projeto da Varanda. Mas, ao contrário da cantora, que compôs o poema como resposta às críticas da imprensa, a concepção dos mineiros foi um pouco mais simples.

“‘Às Vezes um Sonho’ surgiu no meio do processo. Nós tivemos essa vontade de fazer um disco com um grande nome e ele me veio do nada. Mandei uma mensagem no WhatsApp e falei: ‘Gente, nome do disco aí.’ E todo mundo concordou. Ele é uma grande coisa que tenta costurar todas as canções e trazer as nuances do sonho.”

Esse imaginário, no entanto, não funciona apenas como uma moldura para o disco. Ele atravessa as canções de diferentes maneiras, entre desejos, memórias, fantasias e estranhamentos, criando um elo entre faixas que não nasceram necessariamente sob um mesmo conceito.

“Fomos percebendo que a coisa dos sonhos era recorrente nas composições e fomos encontrando esse caminho conforme levantávamos as músicas. Acho que nós sempre fomos loucos e sonhadores. Outro dia, uma pessoa apontou que a última música do Beirada começa justamente com ‘sonhos que vêm em vão’. É quase um spoiler do que veio depois. O sonho sempre está nas coisas que vamos criando. Nós gostamos muito de sonhar”, apontou Augusto.

E cabe bastante coisa nesse universo. O disco não trata o sonho como uma ideia única: ele aparece no desejo e na fantasia, mas também nas lembranças, nos estranhamentos e naquilo que escapa da realidade. Essa amplitude atravessa não apenas as letras, mas também a identidade visual construída ao redor do álbum.

A capa, assinada por Pietra Coelho, mergulha completamente no universo onírico. Em tons pastéis, a ilustração reúne imagens que parecem saídas de um sonho: um anjo sobrevoando a cena e um peixe adormecido na cama, numa cena cercada por nuvens, estrelas e uma paisagem quase infantil.

“Eu mandei todas as letras para ela e expliquei alguns elementos recorrentes nas músicas, como anjos, nuvens e uma certa sensação de conforto, mas também uma sensação onírica, de algo diferente da realidade. Acho que ela pegou essa parada surrealista que nós queríamos e colocou de uma forma muito bonita. Mas o norte estético foi todo dela. Ela pegou aquilo e deu a cara dela”, contou a vocalista.

“E casou superbem. Acho que, se as músicas tivessem cores, seriam justamente as cores que estão na capa do disco. Muito obrigado, Gatinho Fada (@gatinhofada)”, acrescentou o baixista.

Participações especiais

Ao longo dos primeiros trabalhos, a Varanda lançou músicas com nomes como Lauiz (Pelados), em “Cores no Céu”, Manu Julian (Pelados), em “Cê Mexe Comigo” e Dinho Almeida (Boogarins), em “Desce Já”. Agora, a surpresa veio de ninguém menos que Fernanda Takai (Pato Fu), em uma faixa delicada e com andamento suave. 

“Foi uma grande honra para nós a Fernanda Takai gravar uma música conosco. Em todo show, nós falamos como se fosse a primeira vez que estivéssemos anunciando”, comentou Amélia.

As duas se viram pela primeira vez em um concurso de marchinhas no Pirex, em Belo Horizonte. “Ela caiu de paraquedas lá. No final do concurso, ela me falou: ‘Eu ouvi as músicas da Varanda. Muito legal, parabéns, continuem’. Eu fiquei honradíssima. Essa interação ficou na minha cabeça e, fazendo o disco, começamos a pensar em quem poderia somar, porque também é legal colaborar com pessoas diferentes e trazer novas visões.” A troca entre as cantoras resultou em “Sereno” – inicialmente, a ideia era chamá-la para colaborar em outra faixa, mas a composição sequer entrou no disco. 

“Nós enviamos todas as músicas e isso também foi legal: ela ouviu e falou ‘Essa é a que eu quero participar’. No fim, foi legal que ela pôde escolher”, completou Bernardo.

A banda também citou um mix diverso de nomes com quem gostariam de colaborar: Céu, Sidney Magal, Rolling Stones, Slipmami e RT Mallone, rapper que venceu o reality show da Netflix Nova Cena, com quem o grupo vem trocando mensagens.

Selo Sesc Minas Musical

O lançamento ainda marca um dos primeiros projetos do catálogo do recém-criado Selo Sesc Minas Musical, que busca produzir, distribuir e promover a música mineira. Além da Varanda, fazem parte Fabinho do Terreiro, EZKIEL, Deh Muss, Pelos, Letícia Leal e a Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia de Ouro Preto. 

“Ficamos muito felizes por termos sido escolhidos. Minas tem uma quantidade enorme de artistas incríveis, então estar nessa pequena seleção foi uma honra mesmo. Se conseguimos trazer a Pietra Coelho para a parte visual, o Fernando Rischbieter para a produção e todo o resto que conseguimos incorporar nesse disco, só foi possível porque o Sesc apoiou e acreditou no nosso trabalho”, comentou o baterista.

“Ainda somos uma banda independente. Foi um projeto pontual, mas é muito legal ter um subsídio para trabalhar da forma como gostaríamos. É indiscutível que tudo funciona melhor com estrutura e infraestrutura. Chegamos a um resultado muito legal e agradecemos muito ao Selo Sesc, que abraçou esse trabalho conosco”, completou.

O ano da Varanda

Com uma sequência intensa de shows pelo país, a banda vive um daqueles momentos que parecem mais fáceis de reconhecer de fora do que para quem está no meio deles. Na correria de tocar um projeto independente, ainda falta tempo para dimensionar o que está acontecendo.

“É tanta coisa emendada uma atrás da outra que não dá muito tempo para pensar nisso. Dá para sacar que a coisa está acontecendo, mas é muita coisa, então nós só vamos indo. É quase um lance de piloto automático”, disseram Mario e Augusto.

“Eu acho que tenho esses checkpoints. Teve o Lolla, também quando fizemos o primeiro show em São Paulo e tinha pessoas que eu nunca tinha visto na vida. Cada vez que vou a uma cidade nova e encontro gente que sabe cantar as músicas, é um momento em que coloco um pininho ali”, disse Bernardo.

A ficha, portanto, parece cair lentamente. Ao invés de um grande acontecimento capaz de dividir a trajetória entre antes e depois, são esses pequenos momentos que ajudam o quarteto a dimensionar o espaço conquistado.

“Eu acho que é aquela história de que nós só percebemos que estamos vivendo um momento histórico quando ele se torna histórico. E, em escala pequena, é um pouco disso. Nós só vamos entender isso aqui depois.”
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