Banda se apresentou seu segundo disco em show no SPIM festival
Banda se apresentou seu segundo disco em show no SPIM festival

A banda Pelados iniciou a sua nova era em 2025, com o disco Contato (Selo Risco). O segundo álbum da banda, formada por Helena Cruz, Luiz Martins (Lauiz), Manu Julian, Theo Ceccato e Vicente Tassara, foi muito bem recebido pela crítica, chegando a aparecer na lista de 100 melhores discos do ano da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).
Com sucessos como “modrić ” e “whatsapp 2”, Contato elevou o patamar do grupo. Em 2026, eles lotaram a Casa Natura junto com a banda Boogarins, e apresentaram um show elétrico que fazia parte da programação da primeira edição do festival SPIM.
Em entrevista ao Rota Indie, a banda contou sobre as novidades que vieram com o segundo disco, detalhou o seu processo de composição e ressaltou a importância de darmos atenção a outras bandas da cena independente.
Como foi a recepção de Contato? Foi melhor do que estavam esperando?
Helena Cruz: Acho que foi diferente de foi mal. Quando compusemos o primeiro, estávamos nos entendendo como banda, morando juntos por dez dias; foi quase uma catarse. Em Contato, nós nos organizamos um pouco mais e pensamos muito no passo a passo do disco. Sinto que foi um lançamento mais cuidadoso da nossa parte, então a recepção — que foi ótima — do disco acabou sendo surpreendente para todos nós. Para mim, o mais engraçado foram as pessoas tentando encaixar o disco em algum gênero e gêneros que eu nunca tinha ouvido falar antes.
Vocês têm muitos projetos paralelos: outras bandas, projetos solo, produção. Como vocês organizam isso com a banda?
Luiz Martins: Quanto mais tocamos, melhor ficamos. É verdade que às vezes é difícil entender onde termina uma coisa e começa outra, mas, na prática, é ótimo poder tocar mais, fazer mais coisas, produzir mais e abrir os ouvidos.
Vicente Tassara: Quando você entra em uma banda, precisa direcionar seus interesses para uma sonoridade específica, que não reflete a totalidade do que você gosta. Eu tenho vários interesses musicais diferentes; se fizesse uma banda só, não me sentiria feliz. É um jeito de não ficar isolado a uma parada só.
O que faz o nosso som ser legal é que, apesar de pertencer a um gênero específico, estamos sempre flertando com os limites dele. Isso tem a ver um pouco com os nossos interesses diferentes. Temos muitos gostos e ídolos em comum, mas também referências separados. Vamos mostrando essas influências uns aos outros e construindo algo que é a identidade dos Pelados — não apenas o Vicente, o Luiz ou a Helena.
Helena Cruz: Os projetos paralelos ajudam a construir o som que criamos juntos. O que fazemos juntos só existe porque nós cinco trazemos inúmeras referências e trabalhos fora. Conseguimos canalizar e criar algo juntos justamente por sermos pessoas diferentes, mas parecidas em alguns quesitos.
De onde vem as inspirações das letras lúdicas da banda?
Luiz Martins: Nós nunca sentamos com a intenção de fazer uma letra para ser engraçada. Mas, a partir da nossa personalidade — pelo menos da minha e a banda tem isso —, não conseguimos nos levar a sério demais. Entendemos que o mundo é meio engraçado, e isso transborda um pouco nas letras. Falamos de assuntos fúteis ou bobos não para chamar a atenção, mas porque soa mais real para nós; tem mais a ver com mundo que conhecemos.
Manu Julian: Nós somos um grupo muito específico, isso faz parte da nossa característica e o humor também é uma ferramenta para falar de coisas sérias. Então existe esse contraste no nosso trabalho entre o melancólico e o engraçaco, o desleixado e o bem feito. Transitar nesse limite entre os dois extremos é algo que nos interessa criativamente
Quais são as diferenças das turnês do primeiro disco para o atual?
Helena Cruz: Com Contato, estamos viajando muito mais. Montamos um show pensando em cenografia, figurino e um novo mapa de palco. A preparação do show foi bem diferente, e os lugares que conseguimos chegar com a turnê de Contato foram muito maiores do que com o foi mal. É uma coisa meio natural porque a banda vai crescendo: conseguimos tocar em outros estados e regiões do Brasil que não tínhamos feito antes. Agora estamos a duas semanas de viajar para a Europa pela primeira vez com a banda, então está sendo algo bem diferente.
Luiz Martins: O Contato foi meio como um telescópio, enquanto o foi mal era um microscópio. Foi legal porque com esse disco estamos dialogando com o universo a partir dessa "antena" dos Pelados, estamos tentando levar este álbum o mais longe que conseguimos. Não que não fizemos isso com o foi mal, mas conforme fomos crescendo e trabalhando, foi ficando mais fácil e possível.
Theo Ceccato: O foi mal nos permitia tocar em qualquer buraqueira: era só plugar os instrumentos e tocar na lata. Este é mais chatola, então temos que ser mais exigentes com alguns lugares. Então temos que ser mais exigentes com alguns lugares só porque não dá mesmo. Ele exige um certo número específico de canais (inputs), é mais infernal. Também tem essa coisa de ser mais arramadinho, diferente de um show de rock’n roll.
Helena: O que é legal também, é mais digitalóide.
Recentemente, viralizou um vídeo sobre pessoas que formaram bandas em escolas particulares de São Paulo na adolescência. Acredito que é possível criar algo legítimo mesmo ocupando um espaço de privilégio. Queria ouvir a opinião de vocês sobre isso.
Manu Julian: A questão socioeconômica atravessa a cultura de todos os jeitos. É importante você levar isso de uma maneira crítica e entender que isso acontece por falta de acesso. Temos a dinâmica de algumas escolas particulares de São Paulo que têm muitas vezes uma preocupação cultural, uma coisa construtivista que às vezes dá espaço para essas coisas. Mas, ter banda no Brasil hoje, não é um formato simples de levar. Existe um privilégio em estar conseguindo construir isso, mas estamos no corre que nem todo mundo também fazendo o nosso.
É um assunto espinhoso de certa maneira, somos meio atacados nesse sentido, (compreensivelmente), justamente porque esse espaço muitas vezes não está disponível para todo mundo. A nossa parte nessa história toda é tentar transformar, dar espaço para outras pessoas, dialogar, circular e fazer o rolê acontecer com o que a gente tem.
Vicente Tassara: Acho que a partir do momento que a gente acessa um certo nível de sucesso, de circulação, temos uma responsabilidade de compartilhar esse espaço que galgamos com outras pessoas já que claramente tivemos um monte de privilégios para conseguir chegar nos espaços que conquistamos. Então precisamos fazer um esforço para trazer outras bandas que a gente conhece, porque se você circula com banda independente, você conhece um monte de bandas do Brasil inteiro que fazem um som incrível e que têm muito menos oportunidade, porque o dinheiro que circula em São Paulo não circula em Salvador ou em Belém do Pará.
Conheci várias pessoas que gravaram discos extraordinários e que não conseguiram fazer eles circularem, porque simplesmente não tinha onde fazer show, porque não estavam perto dos jornalistas que conseguiam acessar esses shows. Sou muito fã da banda Les Rita Pavone, que é uma galera lá de Belém que gravam discos há muitos anos, são discos muito fodas. E para eles conseguirem acessar os espaços que são de São Paulo, todos os festivais, eles têm que pagar um monte de passagem, é mais trabalhoso. E acho que essa experiência que a gente tem toda vez, a gente vai viajar, a gente vai para Salvador, a gente conhece uma turma que faz um som que é foda, você vai lá para Porto Alegre, é a mesma coisa. O que podemos fazer, já que estamos nesse lugar, é tentar sempre puxar essas pessoas e apresentar elas no momento oportuno. Precisamos tentar compartilhar esse espaço de alguma maneira.
Manu Julian: Isso também envolve a responsabilidade de discutir o assunto. O Instagram muitas vezes é uma plataforma muito problemática nesse sentido, porque o assunto é tratado de uma maneira superficial, a discussão não acontece. E tentar entender também o que significa você se referir a um trabalho ou uma região de uma cidade como uma cultura frutífera. Mesmo em São Paulo, galera da nossa idade, você tem o Movimento Náufrago, Nigéria Futebol Clube, Cianoceronte, D’Artagan Não Mora Mais Aqui… Existe um movimento de bandas indies da baixada carioca muito forte, da Oruã, da galera do Escritório, Drogma… É isso, trocar com essa galera, prestar atenção no que as pessoas estão fazendo e dividir o que tem para dividir.
Helena Cruz: E também tomar cuidado, justamente porque as redes sociais são superficiais. Temos que pensar o que de fato esse vídeo ajudou na discussão ou atraiu ragebait, e o quanto uma discussão do Instagram pode realmente gerar alguma coisa que seja construtiva.
Theo Ceccato: Já era uma discussão muito importante entre as pessoas que de fato movimentam a cultura. Tem que ser discutido, ninguém nunca negou o privilégio na vida. As bandas são mais unidas do que parece, a gente se apoia, a gente se escuta, a gente se curte. Esse negócio de cena não está com nada.
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