“É impossível ignorar”: política e posicionamento na cena independente

Em entrevista à Rota Indie SP, Vitor Brauer, da Lupe de Lupe, fala sobre política na música, os dilemas de se posicionar na cena independente e a responsabilidade dos artistas diante da realidade brasileira.

Na cena independente, a política também atravessa a obra de outras maneiras. Na Lupe de Lupe, ela aparece em LULA, álbum que incorpora referências à trajetória política brasileira e propõe uma reflexão sobre o país. Para Vitor Brauer, vocalista e guitarrista da banda, ignorar essas questões é incompatível com a própria experiência de fazer música. “Sendo o tipo de músico que eu sou, fazendo o tipo de música que eu faço, que é uma coisa mais alternativa punk, é impossível ignorar”, afirma, em entrevista exclusiva ao Rota Indie. Sua conclusão é direta: “Tem que falar”.

 Na música “Quantos Serão no Final?”, de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro, a guerra aparece em imagens de destruição e na pergunta sobre quantas vidas ainda serão perdidas. Entre bombas e mísseis, a letra questiona: “Bomba de gás, mísseis e mais / Quantos Omar morrerão?”. Ao mencionar Omar, a canção introduz uma vítima identificada antes de ampliar a pergunta para “Quantos serão no final?”, deslocando o olhar de uma pessoa para o conjunto de vidas ameaçadas pelos conflitos.

A composição não se limita às mortes que já ocorreram, mas também aponta para aquelas que ainda podem acontecer. A violência é descrita como uma força destrutiva que chega, fere e mata, enquanto a pergunta que dá título à música permanece sem resposta. Nesse caso, o posicionamento não aparece em uma declaração separada sobre a guerra: está construído na própria letra, na insistência em perguntar quantas pessoas ainda morrerão.

A pergunta permanece especialmente relevante em 2026. Neste domingo, 4 de outubro, o Brasil vai às urnas para o primeiro turno das eleições. São 158.765.543 eleitores aptos a votar, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. “Quantos serão no final?”

A política não chega aos artistas apenas pela urna. Ela aparece em letras, discos, entrevistas, manifestações e publicações nas redes sociais. Em alguns casos, passa a fazer parte da própria identidade artística. Em outros, permanece separada da obra. Há ainda quem prefira não falar.

Entre essas escolhas existe uma questão menos simples do que parece: quanto custa se posicionar quando a arte também é trabalho?

Relação entre música e política

Para Vitor Brauer, a resposta começa pela própria maneira de fazer música: “Acho que tem muito a ver, porque a gente tem que lidar com essas questões todo dia. Sendo o tipo de músico que eu sou, fazendo o tipo de música que eu faço, que é uma coisa mais alternativa punk, é impossível ignorar. E vindo de onde eu vim, do interior de uma família humilde, é difícil lidar com essas coisas. E eu acho que importa muito, tanto para dar exemplo que, sim, a gente pode fazer mesmo vindo de onde a gente veio, quanto para mostrar uma luz no fim do túnel, não só para a gente, mas para pessoas de outros segmentos sociais, de outras cores, de outras raças, de outros gêneros. É muito importante. Tem que falar”, afirma.

Na Lupe de Lupe, falar não ficou restrito aos palcos ou às redes sociais. A política também entrou na construção da própria obra. O álbum LULA nasceu em um momento de forte disputa política no Brasil. Vitor conta que a ideia do disco estava ligada, entre outras coisas, à vontade de refazer uma turnê pelo país inspirada na viagem feita por Luiz Inácio Lula da Silva antes de sua primeira eleição, registrada no documentário Entreatos. Áudios do filme foram incorporados ao álbum.

As cidades brasileiras também passaram a fazer parte da construção do disco. Para Vitor, Lula aparece ali como uma espécie de representação das contradições do país — “o nosso melhor e o nosso pior”, como define.

Se havia alguém no Brasil que duvidasse que um torneiro mecânico, saído de uma fábrica, chegasse à Presidência da República, 2002 provou exatamente o contrário.” — Trecho do discurso de diplomação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no TSE (2002), recitado na faixa “Brasil Novo”, da Lupe de Lupe. 

Na faixa, a banda trafega por violência, memória, família e pela expectativa de transformação do país. Em “Campo Minado”, Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro usam imagens de bombas, ferimentos e explosões para falar sobre violência e guerra. Já em “Quantos Serão no Final?” , também da dupla, a pergunta sobre quantas pessoas morrerão permanece como eixo da composição. A política, nesses casos, não é um comentário sobre a música. É parte dela.

Quando a convicção encontra o trabalho

“As músicas mais ouvidas das bandas independentes nunca vão ser as músicas políticas, que falam sobre temas cabeludos, como aborto, estupro, morte... etc. E é normal a banda se preocupar. Pensar: ‘Ai, meu Deus, a gente tem que fazer música de amor boba.’ É isso que o povo gosta de ouvir. Não é todo mundo que quer ficar ouvindo música sobre estupro, ao meio-dia, na casa delas, entendeu?”, afirma Brauer.

Para o músico, a preocupação com a recepção do público faz parte dessa discussão. No caso da Lupe de Lupe, porém, a possibilidade de abordar temas políticos está ligada também à posição que a banda ocupa na cena independente.

“Eu só acho que a Lupe de Lupe e eu, principalmente, temos que dar exemplo nesse sentido de que estamos numa posição muito privilegiada, podemos falar sobre essas coisas e podemos falar sem ser de uma maneira panfletada. De modo inteligente, é possível É difícil, mas é possível”, continua.

Vitor também chama a atenção para as bandas que deixam de abordar esses assuntos por receio ou por não considerarem a música um espaço adequado para esse tipo de discussão.

“Acho que tem muita banda de esquerda que não fala por medo, que não fala porque acha que música não é um lugar para falar essas coisas e eu acho que a gente tem que dar exemplo para essas pessoas poderem fazer”, conclui.

A própria condição social aparece na explicação de Vitor sobre como lida com situações em que se posicionar pode ser mais difícil. “Eu não tenho nenhuma situação que eu não possa me posicionar, mas é porque eu sou de uma classe privilegiada, né? Eu sou branco, hétero, cis. A minha existência não é uma resistência, por assim dizer. Mas quando eu me encontro em situações que seriam, talvez, perigosas me posicionar, eu tento conversar.

O mecânico que encontrei em Salvador, era super bolsonarista. Eu tentei abrir a mente do cara, falar quenem sempre é assim, nem sempre é Lula, às vezes é o Senado, são os deputados, entendeu? Então, a gente tem que votar bem, desde o início até o final, porque muita merda que a galera acha que o Lula fez não foi o Lula, muita merda que a galera acha que o Bolsonaro fez não foi o Bolsonaro, entendeu? Tem que tentar jogar os dois lados ali pra ver se abre um pouquinho a mente do cara. Porque não adianta ficar martelando com um monte de loucura. Tem que ter um pouco de jogo de cintura, não adianta”, afirma. 

A política depois que o show acaba

Se o palco é um espaço de manifestação, as redes sociais ampliaram as possibilidades de posicionamento. Artistas podem falar diretamente com o público, sem depender de entrevistas ou de um espaço dentro de um show.

Um exemplo disso é Sophia Chablau, que tem usado suas redes para falar abertamente sobre as eleições e questionar o silêncio de outros artistas. Em uma das publicações, relacionou a falta de posicionamento de parte da cena ao medo de perder seguidores, dinheiro e espaços profissionais. Em outra, afirmou que o trabalho de um artista depende de uma cadeia de pessoas que faz a cultura acontecer e relacionou a escolha política a questões que atingem trabalhadores e o próprio setor cultural.

Nesse caso, Sophia não apenas declara sua posição. Ela também questiona a decisão de outros artistas de não se manifestarem.

Outros músicos escolheram formas diferentes de fazer isso. Tim Bernardes publicou uma mensagem declarando seu voto em Lula e, na mesma publicação, incentivou os seguidores a pesquisar sobre os candidatos, acompanhar entrevistas, consultar os planos de governo e formar a própria opinião.

Nas redes sociais, bandas da cena independente também tornam públicos seus posicionamentos políticos. Grupos como Pelados, eliminadorzinho, PRÉ/SAL e boasorte utilizam esses espaços para se manifestar, ampliando uma discussão que também aparece em festivais como o Bananada. 

São diferentes formas de ocupar o mesmo espaço. Sophia Chablau utiliza as redes sociais também para cobrar posicionamentos de outros artistas; Tim combina a declaração de voto com um incentivo à pesquisa; enquanto bandas como Pelados, eliminadorzinho, PRÉ/SALe boasorte também levam suas manifestações políticas para esses espaços. Para além das iniciativas individuais, festivais como o Bananada também fazem parte dessa discussão, ao colocar em evidência a relação entre música independente, posicionamento político e ocupação dos espaços culturais.

As redes sociais ampliam o alcance dessas manifestações ao permitir que artistas falem diretamente com quem acompanha seu trabalho. Uma publicação pode chegar tanto ao público que já conhece sua música quanto a pessoas que entram em contato com o artista justamente por causa de seu posicionamento. Nos festivais, por sua vez, essa discussão ganha uma dimensão coletiva: as escolhas de programação, as manifestações dos artistas e o próprio espaço compartilhado pelo público podem integrar o debate sobre o papel político da cultura.

Nesse contexto, música, imagem pública e opinião política passam a coexistir na maneira como o público conhece e interpreta um artista. Uma canção, uma publicação ou uma fala durante um show podem contribuir para a percepção que os ouvintes constroem sobre quem está por trás da obra. Quando essa discussão chega também aos festivais, ela deixa de envolver apenas a decisão individual de cada músico e passa a incluir o papel dos espaços culturais na circulação dessas ideias.

E é justamente aí que a discussão sobre posicionamento deixa de estar restrita ao palco: ela passa a acompanhar o artista também fora dele.

Quando o posicionamento vira música 

Para Vitor, existe ainda uma diferença entre falar sobre política durante um show e fazer com que a questão sobreviva dentro da obra. “É muito importante a gente se posicionar nas letras das músicas”, afirma. “Porque é muito fácil ser só mandar um 'Lula 13' ou colocar uma bandeira da Palestina no show e suas letras não falarem sobre isso. Exige coragem e eu sei que é difícil, mas... Precisamos desse tipo de coisa.”

O músico afirma que nunca teve o hábito de interromper os shows para repetir palavras de ordem políticas, mas acredita que as canções podem produzir efeitos que vão além daquele momento. “Eu nunca fui um cara que falava 'Fora Temer' ou 'Fora Bolsonaro' nos shows. Mas as minhas letras, a gente tem que ter um efeito duradouro. E o jeito de a gente ter um efeito duradouro na vida das pessoas e na consciência política das pessoas é com as músicas. Então é muito importante fazer isso nas músicas mesmo.”

Ele argumenta que uma declaração feita durante uma apresentação termina quando o show acaba. Uma música, por outro lado, pode continuar sendo ouvida anos depois. É por isso que, para ele, o posicionamento político não deveria ficar apenas no gesto de levantar uma bandeira ou declarar apoio a um candidato.

A ideia aparece na própria trajetória da Lupe de Lupe. LULA não é apenas um álbum que recebeu um título político. Sua concepção incorpora a ideia de uma viagem pelo Brasil, referências documentais e uma reflexão sobre a identidade brasileira. Em “Brasil Novo”, essa reflexão aparece na expectativa de transformação expressa nos versos: “Sei que pode florescer / Um povo forte e vão saber / Perdoar quem fez sofrer”. A letra articula memória, sofrimento e esperança, aproximando a experiência política da construção de um imaginário sobre o país.

Em “Campo Minado”, de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro, a guerra é construída a partir de imagens de bombas e corpos feridos. A letra questiona a diferença na forma como essas mortes são apresentadas pelas manchetes: quando as vítimas são estadunidenses, a violência ganha espaço no noticiário; quando são pessoas inocentes que vivem longe do Ocidente e do chamado Norte Global, a cobertura seria mais branda e menos presente.

Ao questionar esse contraste, a música também chama atenção para a origem dessas bombas. Ao dizer que elas “não nascem do céu” nem “brotam do chão”, a letra desloca o olhar das vítimas para aqueles que produzem e lançam essas armas, colocando em questão a responsabilidade por trás da violência. A música se torna, então, um espaço onde o artista pode sustentar uma discussão por mais tempo do que duraria uma publicação.

O que está em jogo para a cultura?

A relação entre posicionamento político e cultura também aparece de maneira coletiva.

O manifesto “A cultura está com Lula e pede mudanças”, assinado por profissionais de diferentes áreas do setor cultural, declara apoio à reeleição de Lula e defende mudanças na política cultural. Entre os signatários estão o músico e compositor Arnaldo Antunes, o cantor e compositor Chico César, a atriz Glória Pires, o ator Caio Blat, as cineastas Laís Bodanzky e Anna Muylaert e a artista visual Rosana Paulino. A presença de profissionais da música, do cinema e das artes visuais dá dimensão à mobilização e evidencia a diversidade de agentes envolvidos no debate.

O texto afirma que a cultura deveria ocupar uma posição central no próximo governo e apresenta o setor também como uma área econômica, responsável pela geração de empregos e renda. O documento reivindica mudanças na gestão cultural, políticas para instituições como Iphan, Funarte e Ancine e melhores condições para artistas e produtores. Também apresenta críticas a diferentes aspectos do mercado cultural e defende medidas relacionadas às plataformas de streaming e às grandes corporações que, segundo os signatários, interferem na economia da cultura.

Para parte desses profissionais, portanto, o apoio a uma candidatura envolve também uma visão sobre o papel da cultura no país, suas formas de financiamento, as condições de trabalho de quem a produz e as políticas públicas que orientam sua produção e circulação.

Existe um preço?

O material reunido para esta reportagem não permite afirmar que artistas independentes perdem oportunidades profissionais de maneira sistemática por causa de suas posições políticas. Há, porém, algo que aparece repetidamente: o receio de que isso aconteça.

O manifesto mostra como parte dos profissionais da cultura relaciona as escolhas políticas às condições de produção, financiamento e circulação artística. Mas, para além das mobilizações coletivas, o posicionamento também envolve dilemas individuais: o que significa assumir publicamente uma posição política quando isso pode afetar a relação com o público e os espaços de trabalho?

Para Vitor Brauer, essa discussão passa também pelo espaço que artistas independentes ocupam e pelo receio de abordar determinados temas em suas músicas. Ele reconhece que existe uma preocupação legítima com a recepção do público, mas defende que artistas em posições mais privilegiadas podem usar essa condição para abrir caminhos a outros músicos que têm receio de se manifestar. “Eu acho que tem muita banda de esquerda que não fala por medo, que não fala porque acha que música não é um lugar para falar essas coisas e eu acho que a gente tem que dar exemplo para essas pessoas poderem fazer”, afirma. Por serem situações diferentes, elas não podem ser resumidas em uma única conclusão.

O que elas têm em comum é a constatação de que a política não está necessariamente do lado de fora da carreira artística. Ela pode estar na música que alguém escreve, na imagem projetada em um palco, no contrato que determina o que pode ser apresentado, na postagem que chega ao público ou na política cultural que define as condições de produção.

Para um artista independente, essas coisas não acontecem em mundos separados.

“Tem que falar” — mas falar como?

Vitor Brauer acredita que sim, os artistas devem se manifestar: “Tem que falar”. Mas a questão talvez esteja justamente no que vem depois dessa frase.

Falar pode significar escrever uma música denunciando os horrores da guerra. Pode significar lançar um álbum chamado Lula. Pode significar levantar uma bandeira durante um show. Pode significar publicar uma sequência de stories. Pode significar assinar um manifesto. Ou pode significar simplesmente dizer em público em quem se pretende votar.

Também existe a decisão de não falar. Nenhuma dessas escolhas existe completamente fora das condições materiais da vida de quem trabalha com arte. É por isso que a pergunta de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro permanece tão adequada para essa discussão:“quantos serão no final?”

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