Artistas trocam streaming por analógico: estratégia ou esgotamento digital?

De mídia física a shows sem celular, nomes como Phoebe Bridgers, Boogarins e Lorde propõem um consumo musical desacelerado

Não é de hoje que os artistas estão optando por estratégias alternativas de divulgação de seus trabalhos. Deixando o streaming de lado, alguns deles priorizam apostar em mídias físicas, – como CD's e discos de vinil – enquanto outros escolhem publicar seus projetos apenas em sites, como era feito nos primórdios da internet, no início dos anos 2000. 

É o caso da banda Boogarins, que lançou um novo EP que pode ser acessado apenas pelo site oficial do grupo ou via newsletter. Segundo os integrantes, a ideia era reaproveitar músicas que foram descartadas de trabalhos anteriores e disponibilizá-las para os fãs do grupo, criando uma proximidade entre eles. Intitulado Diferenciado, o projeto possui duas partes, que também são performadas ao vivo. 

Recentemente, a cantora Marina Mole fez um movimento parecido. Ela gravou seu novo disco, Azucrim (2026), inteiramente em fita de rolo – uma tira plástica coberta com um material magnético que é enrolada em carretéis ou bobinas de plástico ou metal. Em entrevista ao Rota Indie, Marina explicou que o uso dessa ferramenta trouxe surpresas e texturas próprias para o seu disco: 

“Tem um momento que a música começa a acelerar e rola uma mudança de pitch. Isso a gente não fez, foi a fita que fez. No final das músicas tem detalhes, tem hora que muda o timbre e acaba dando um negócio muito mais original, uma coisa muito única.” 

Artistas mainstream também aderiram ao movimento

A ideia do retorno ao analógico não é exclusiva do âmbito nacional. Em 2026, Lorde disponibilizou versões alternativas das faixas do seu último disco em seu site oficial, na aba XRAYS – como se fosse uma página de “raio-x” do álbum. O movimento foi feito em comemoração de um ano de lançamento de Virgin (2025) e também possui retratos do processo criativo da neozelandesa. 

Hayley Williams, nossa eterna miss Paramore, também realizou um movimento parecido. Ela escondeu 17 faixas inéditas atrás de um site secreto. Para ouvi-las, os fãs precisavam de um código de 16 dígitos enviado junto aos produtos de sua marca de cosméticos, a Good Dye Young. A ideia era fazer o público baixar as músicas e montar a sua própria ordem do novo álbum da artista, o Ego Death At a Bacherollete Party (2025), que só foi lançado nos streamings dias depois.

Shows que te convidam a se desconectar

Quem lembra de quando Mac Demarco estava aqui no Brasil, em abril? Durante a turnê pelo país, ele distribuiu diversos CD’s repletos de músicas novas para seus fãs, que foram lançadas nas plataformas de streamings somente meses depois, em setembro desse ano. Ao todo, são 47 faixas, divididas em quatro CD’s, intitulados Dog on The Rock, Seaplane Dog, The View From Tian Tan e Seven Off The Two.

Phoebe Bridgers foi mais radical. Ela pede que os fãs coloquem os celulares em armários lacrados ao assistirem aos shows da Lost Tour, turnê do álbum Lost Weekend (2026), que está acontecendo na Europa. Com a falta de registros digitais, as apresentações viram um mistério para aqueles que ainda não tiveram oportunidade de comparecer a um show da nova fase da artista. Ainda no movimento analógico, Phoebe também adicionou uma música exclusiva nos discos de vinil de Lost Weekend: “Best Dressed”, um feat com Isaac Wood.

Já existem festivais que seguem a mesma estratégia de Phoebe. É o caso do Contra.cena, que receberá as bandas Flerte Flamingo, Infinito Latente, Celacanto, Sislop e Morro Fuji. O evento acontece em outubro e irá distribuir adesivos para bloquear as câmeras dos celulares, convidando a plateia a estar mais presente no que está acontecendo no momento.

Estratégia ou cansaço?

Os exemplos acima nos convidam a refletir sobre a motivação dos artistas para o retorno a formas de divulgação que eram populares anos atrás e a rejeição ao uso de smartphones. O que faz essas figuras optarem por não priorizarem o streaming? Seria a falta de retorno monetário? Ou uma estratégia de divulgação para chamar a atenção do consumidor? É possível que seja apenas o cansaço de estar conectado o tempo inteiro? 

De uma forma ou de outra, o público tem respondido bem a ações voltadas para o analógico. A busca por CDs e discos de vinil aumenta a cada ano que passa. Em 2026, as vendas cresceram 16% e 2,4%, respectivamente, segundo a Billboard. 

Estamos mais conectados do que nunca, e, como resposta, surge uma busca por um espaço de descanso diante dos bombardeios de informações das redes sociais. Essa fuga nos ajuda a criar uma relação mais interessante com a arte e com nós mesmos, além de contribuir para uma produção e um consumo consciente e desacelerado. A tendência é só aumentar, uma vez que a vida real é mais valorizada do que a digital, que já deixou de ser novidade. 

Edit Template

© 2026 Todos os direitos reservados