Nos primeiros registros oficiais com seis integrantes, banda mostra lado mais pop, sem deixar a estranheza de lado; confira entrevista
Nos primeiros registros oficiais com seis integrantes, banda mostra lado mais pop, sem deixar a estranheza de lado; confira entrevista

É difícil colocar CACO/CONCHA em uma única caixa! Em entrevista, André Nunes, Felipe Nunes, Gustavo Imaguire, Lucas Shiramizo, Mariah Altruda e Marília Toledo, contaram ao Rota Indie como foi o processo criativo do novo single duplo “Cinderela / Noite Nubente”, lançado no fim de setembro, e também sobre a dinâmica dos 6 membros da banda.
Eles passam pelo funk, soul, gospel, pop, eletrônica e, mais recentemente, por uma pegada mais próxima do pop e pós punk. Mas talvez o mais interessante seja perceber que eles parecem não estar muito preocupados em escolher uma dessas direções.
Essa característica também aparece nos shows. A banda já passou por lugares bem diferentes, desde o Porta Maldita até o SP Coffee Festival, e cada palco acaba pedindo uma versão diferente do projeto. Em alguns momentos, entram bateria eletrônica, sintetizadores e uma formação mais enxuta. Em outros, eles levam todos os apetrechos e instrumentos que têm para chegar na sonoridade que imaginam para aquele show.
Eles mesmos contam que aprenderam a “se conter quando necessário”, mas também sabem quando é hora de fazer um “barulhão”. Essa frase explica bastante sobre CACO/CONCHA: existe uma vontade de experimentar, mas também uma percepção de que nem toda música precisa ocupar o mesmo espaço.
“Somos como um camaleão. Nos adaptamos não só sonoramente, mas no nosso mood. Acho que as pessoas acompanham justamente porque não tem uma coisa fixa. E, como misturamos culturas de muitos gêneros, muitas cabeças e personalidades na banda, isso acaba refletindo na nossa vida.”
Depois de começar como um duo com os primos Nunes, CACO/CONCHA chegou à formação atual com seis integrantes. E, naturalmente, compor com seis pessoas é bem diferente de conciliar duas cabeças. Perguntados sobre como funciona esse processo, a primeira resposta é quase um “é uma bagunça completa”. Depois vem a correção: na verdade, é um caos organizado”.
“Somos muito organizados perto do que poderia ser. Temos o hábito de esperar o outro terminar de falar para trazer outra sugestão, por exemplo. Ouvimos as ideias de todos até chegar na composição final com os recordes do que cada um falou. Também tem muita confiança. Sabemos que todos têm bom gosto e boas opiniões e confiamos muito no que cada um se propõe a fazer.”
Cada integrante tem uma espécie de departamento dentro da banda. Tem quem fique mais próximo da bateria e percussão, quem trabalhe com voz, eletrônicos, teclados e por aí vai. Mas ninguém fica realmente preso ao próprio lugar. As ideias circulam e todo mundo interfere. É uma dinâmica bem bonita para quem vê de fora, inclusive. Uma música pode começar como uma “carcaça” e terminar em um lugar completamente diferente após passar pelas doze mãos do grupo.
“Eu acho que a gente já tem o hábito de esperar o outro terminar de falar para trazer uma outra sugestão. Todo mundo tem ideias, mas nós ouvimos as ideias de todos e aí no fim a ideia vira um mix de ideias.”
O resultado é uma banda que ainda está entendendo o próprio formato. E estar nesse processo não quer significa algo ruim. Pelo contrário, é justamente nele que eles aproveitam para experimentar.
Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis para eles responderem. Não existe um perfil muito definido de quem escuta a banda. Tem quem acompanhe desde o começo, pessoas que chegaram pela internet, outras pelo boca a boca e públicos de diferentes idades aparecendo nos shows. E eles comentam que isso também tem relação com a própria música.
Como CACO/CONCHA não parte de uma referência única, é difícil imaginar que o público também venha de um lugar só. Uma pessoa pode chegar por uma música mais dançante, outra por uma referência de pós punk e outra simplesmente porque viu a banda ao vivo.
Eles também não compõem pensando em uma persona específica. A ideia parece ser mais simples do que isso: fazer a música que faz sentido para eles e deixar que o público se forme a partir daí.
“Nós estamos fazendo música pela música. Juntamos todas as referências com a possibilidade do novo e tocamos o que achamos que fica legal. Não queremos fazer um rock show que nem que as outras quinze mil bandas de Pinheiros.” Por isso mesmo, a banda está sempre tentando encontrar outras possibilidades dentro do próprio som.
“Cinderela” e “Noite Nubente” chegam juntas como um single duplo e o formato funciona quase como um lado A e um lado B de um disco de vinil. As duas músicas têm propostas diferentes, mas fazem sentido juntas.
“Cinderela” nasceu de uma ideia instrumental, ainda sem letra, e foi ganhando forma ao longo do processo. Já “Noite Nubente” chegou mais próxima de uma música pronta, com uma ideia de amor romântico quebrado e arquétipos. Uma é mais dançante, enquanto a outra é mais íntima. Uma parece mais próxima de um delírio, e a outra pisa um pouco mais na realidade. Exatamente por isso, as faixas funcionam melhor juntas do que separadas.
O lançamento também representa uma mudança importante no processo de gravação. Pela primeira vez, as músicas foram construídas realmente como banda, com os seis integrantes tocando e colocando suas próprias ideias no processo, apesar da ideia inicial ser anterior à entrada dos integrantes.
Os lançamentos contam com produção de Gui Cunha (Pluma), que já tinha acompanhado alguns shows da banda e trouxe sugestões para a construção das músicas, principalmente em relação a cortes, repetições e estruturas. A intenção era chegar em um lugar mais pop do que nos trabalhos anteriores, mas sem apagar o que já existia nas demos.
“E se nós cortássemos essa parte? E se nós reduzíssemos isso? E se nós fizéssemos um loop nisso aqui?”, lembrou a banda. - eu expandiria:
“Muitas vezes, chegamos com uma estrutura muito clara da música, e o Gui sugeriu cortar uma parte, reduzir outra, colocar um loop. Lembro de estranhar mudar algo que já estávamos acostumados, mas acabou sendo uma troca de visões muito confiáveis e isso agregou muito nas músicas”, comentaram.
As sugestões do produtor acabaram entrando no próprio processo criativo da banda e o resultado ficou em algum lugar entre essas duas coisas. Houve uma preocupação maior com produção e timbres, mas também tiveram pequenos erros mantidos de propósito. “Eu quero todos os erros dos falsetes, eu quero todas as distorções que estejam aparentes.”
Vocais menos corrigidos, falsetes que não saíram exatamente como o planejado e instrumentos menos quantizados ajudam a deixar as músicas com uma sensação mais humana, principalmente em tempos de produção por IA.
Em “Noite Nubente”, por exemplo, existem sons dos animais de estimação dos integrantes que aparecem por poucos segundos. Eles chegaram a gravar vários desses sons para depois escolher o que entraria na faixa.
Além disso, em “Cinderela” existem conversas e sussurros escondidos no meio da música, como se fossem amigas fofocando sobre um relacionamento. Tem também vidro quebrando, pequenas percussões e outros elementos que podem passar completamente despercebidos na primeira audição, mas fazem diferença no resultado.
É quase como se as músicas fossem feitas intencionalmente para serem ouvidas mais de uma vez. Na primeira, você pega uma coisa. Na segunda, percebe outra. Depois de algumas audições, começa a reparar em detalhes que estavam ali desde o começo. A própria banda fala sobre essa característica como uma espécie de música em camadas:
“Na vigésima ouvida, você percebe uma coisa que nem lembrava que estava ali. A música tem camadas de assimilação. Somos muito minuciosos de colocar coisinhas na mixagem. Às vezes você percebe algumas ouvindo no fone, outras na caixa.”
Essa quantidade de camadas é uma característica importante do processo e ajuda a explicar a quantidade de referências que aparecem no som. Existe uma vontade de pegar elementos de lugares diferentes e colocar tudo na mesma música sem necessariamente tentar esconder de onde cada elemento veio.
“Noite Nubente” deixa claro o gosto da banda por misturar coisas que, num primeiro momento, podem parecer não funcionar juntas.
A referência a Nelson Rodrigues, por exemplo, aparece na construção dos personagens e dos arquétipos da música. Mulher, homem, pai, casamento, desejo, fuga. Tudo pode parecer romântico, mas existe alguma coisa estranha acontecendo por baixo dos panos.
Essa ideia também aparece nas referências como Blondie, Talking Heads, New Order e Depeche Mode. São músicas que podem colocar o corpo para dançar, mesmo quando a letra fala de alguma coisa completamente diferente, triste ou trágica. “Você faz uma música animada, mas ela não é uma música feliz. E gosto dessa ambiguidade de você cantar a plenos pulmões uma coisa que não é feliz”, disse a banda.
Na faixa, existe ainda esse contraste entre querer e rejeitar, desejar e ser afastado. A música parece romântica em alguns momentos, mas nunca fica totalmente confortável nesse lugar. É justamente aí que a referência de Nelson Rodrigues faz sentido.
A história não precisa ser completamente explicada e funciona mais como uma crônica, cheia de personagens e situações que podem ser interpretadas de maneiras diferentes. Como eles mesmos definem, existe uma vontade de partir do estranho e encontrar certo conforto coletivo nesse caminho.
Mais do que um lançamento, o single duplo e apresenta a nova identidade da CACO/CONCHA como banda. O mais legal disso tudo é que existe uma sensação de descoberta e nos conecta com a sede de conhecer algo novo.
No fim, as duas faixas funcionam como uma porta de entrada para um universo que a própria banda também está conhecendo junto do público. A formação atual também parece estar descobrindo até onde consegue levar todas essas referências, instrumentos e ideias quando colocadas juntas.
“Cinderela” e “Noite Nubente” podem não representar, necessariamente, uma resposta sobre quem é CACO/CONCHA, mas uma primeira pista do que essa formação de seis pessoas pode construir daqui para frente.
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