Segundo álbum do trio explora o slowcore e as gravações analógicas em um momento de maior entrosamento entre os músicos
Segundo álbum do trio explora o slowcore e as gravações analógicas em um momento de maior entrosamento entre os músicos

O caminho da guandu é lento por escolha. Entre o minimalismo do slowcore e um processo de gravação sujeito às limitações e imperfeições da fita, o trio faz da demora e da incerteza elementos da própria música. É nesse universo que eles lançam “Turvo”, seu segundo álbum de estúdio, nesta quinta-feira (17).
Formada em 2024 por Caique Lima (bateria), cleozinhu (voz e guitarra) e João Corte (voz e guitarra), o grupo conversou com o Rota Indie sobre o novo trabalho e detalhou o momento de maior sintonia entre eles.
Com a precisão dos detalhes e a beleza das imperfeições geradas pelos métodos analógicos de gravação, o disco vai ganhando novas camadas à medida que as faixas avançam. Mantendo um clima linear, ainda assim existem momentos de contemplação e outros mais carregados e dançantes.
Eles exploram o lo-fi e o slowcore não como definições limitadoras, mas como pontos de partida para a construção de um trabalho marcado pelo andamento lento aliado às duas guitarras limpas, à ausência do baixo, às vozes sussurradas e às letras com contexto brasileiro.
As letras falam do amor, da liberdade, do ego e do existencialismo, como uma grande reflexão sobre nosso papel no mundo. “Algumas são mais minimalistas e abstratas, outras desenvolvem temáticas da vida cotidiana. Tem letras românticas e outras mais reflexivas, que criam personagens ou imagens. Mas sinto que todas as temáticas fazem parte do que vemos ou vivemos. Nosso contexto é brasileiro. Fazemos música com o que temos à disposição”, começaram.
O trio considera as mais variadas influências para a construção da obra: “No nosso primeiro disco, gravamos uma versão de ‘Morrer’, do Ratos de Porão. Na música ‘Mesa de Bar’, sampleamos algumas frases do Caetano Veloso e da Marina Lima. Temos muitas influências da música brasileira, desde o sertanejo raiz até o rock nacional. Sempre ouvimos muito Fellini e Mercenárias, por exemplo, e são sons e letras que nos inspiram até hoje.”
Caseiras, as gravações mesclaram técnicas analógicas e digitais. A escolha pela Tascam 4-track — gravadora de fita cassete que tornou-se quase uma quarta integrante da banda — foi definitiva para a estética do projeto e garantiu camadas e texturas orgânicas que nenhum plugin é capaz de reproduzir.
Ainda assim, a pós-produção aconteceu no ambiente digital como um recurso de refinamento, aproveitando e valorizando a personalidade das gravações. A banda explorou experimentações como a saturação analógica, a alteração do pitch, chiados, reverse e recortes para criar a identidade do som.
Comparado ao primeiro álbum, “NO-FI” (2025), “Turvo” representa um momento de maior proximodade entre os membros, o que também pode ser notado no resultado dentro e fora dos palcos. “Quando o João entrou para a banda, em cerca de dois meses já tínhamos composto a maior parte do primeiro álbum pra conseguir fazer o primeiro show e começamos a nos encontrar no estúdio na casa do Cleo pra registrar tudo usando a Tascam. Então, por mais que a gente tenha ficado feliz com o resultado, não demos o tempo necessário pras composições amadurecerem antes de gravar. Ficou bem nítido porque, hoje, quando tocamos as músicas do primeiro disco, os arranjos são um pouco diferentes do que gravamos”, explicou o trio.
“Já nesse segundo álbum, demos um tempo maior entre as composições e os primeiros ensaios até o momento de sentar pra gravá-los, e teve muito mais colaboração entre nós três pra compor as músicas”, completou.
O álbum também conta com participações de músicos que acompanham de perto a trajetória da guandu: Aluno Predileto (vulgo de Guilherme Paz, da carioca gueersh), Marina Mole e omar (Aygam e Manobra Feroz). Marina, inclusive, está em sua terceira colaboração oficial com a banda, agora na faixa “menos um dia”, título que brinca com o feat. “mais um dia”, do disco de estreia.
“É muito legal porque geralmente já compomos a ideia inicial das músicas pensando ‘essa aqui tem a cara do Omar’ ou ‘essa ficaria perfeita com um violino que o Gui manja fazer’”, comentaram.
A banda ainda destacou que as colaborações não se limitam às músicas, mas também estão presentes na identidade visual do álbum e até mesmo no merch. “A guandu só tem três membros, mas temos a contribuição de muito mais gente na construção de um álbum. Realmente é preciso um vilarejo todo.”
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