Para o Nigéria Futebol Clube, ocupar não basta: “Nosso grande sonho é levar esse show para nossas quebradas”

Entre música, performance e ação coletiva, banda cresce na cena independente enquanto reivindica outros espaços para a cultura produzida nos extremos de São Paulo

Você já deve ter ouvido falar do Nigéria Futebol Clube. Se não ouviu, talvez esteja olhando para o lado errado. De Itaquaquecetuba, na zona leste de São Paulo, eles vêm chamando atenção pela originalidade, urgência e por uma liberdade criativa que extrapola a própria música. Na última quinta-feira (10), eles se apresentaram na Casa Natura, na zona oeste da cidade, para uma apresentação no Projeto Frequências ao lado da carioca Vera Fischer Era Clubber.

“Entre Quatro Paredes”, de novembro de 2025, é um ótimo ponto de partida para conhecer a banda, mas não dá conta de explicar tudo o que ela representa. Para entender, é preciso entrar em contato com todo o ecossistema que abrange não só a performance no palco, mas também toda a rede construída ao redor do grupo. 

Essa rede envolve outros músicos e artistas, produtores, espaços independentes e iniciativas culturais, mas também uma maneira essencialmente política de pensar a música e a própria cena. A banda não separa aquilo que cria do lugar de onde veio: a periferia aparece não apenas como origem geográfica, mas como ponto a partir do qual discute preconceito, desigualdade, acesso à cidade e quem consegue ocupar seus espaços culturais.

Nesse contexto, tocar também é uma forma de ocupar, mas o centro pouco importa para eles. Enquanto conquistam espaços como Sesc Pompeia e Casa Natura, existe uma preocupação constante em fazer o caminho inverso: fortalecer uma rede de artistas, criar conexões e fazer com que essa efervescência também aconteça nos extremos da cidade. Para eles, a cena independente não se constrói individualmente, mas como uma estrutura coletiva capaz de criar seus próprios espaços. Tanto é que os shows costumam trazer convidados que, mais do que participações pontuais, passam a integrar a própria banda.

Na última semana, Rodrigo Silva (guitarra e vocais), Raphael “PH” Conceição (bateria e vocais) e Eduardo “Lengui” Rocha (baixo e vocais) subiram ao palco acompanhados de Miizle e Sasso, que, caracterizados como palhaços, transformaram o show em uma performance teatral. Mais do que executar um repertório, o grupo fez da música o ponto de partida de uma apresentação em que improviso, ruído, dança e intervenção se misturavam com um único propósito: reivindicar a liberdade de existir e se expressar sem pedir licença.

No dia seguinte, partiram para Bauru, no interior do estado, para tocar no TUINSANIDADE, festival promovido pelo Barato.mp3, coletivo independente de música da região que dá voz às comunidades trans e preta a partir de um olhar descentralizado. O evento também reuniu nomes como Louva-Gêmeas, Hebe C. Nancy e o trio GOCHUJANG, além dos DJs Soul Jean, TT_w, AQUA, Claridead e OKIISHI. 

É nesse espaço entre música, performance, identidade, território e ação coletiva que o Nigéria Futebol Clube existe. Em entrevista ao Rota Indie, o grupo falou sobre as pessoas que constroem essa história junto com eles e sobre uma contradição que acompanha seu crescimento: conquistar alguns dos principais palcos de São Paulo enquanto o verdadeiro objetivo continua sendo fazer tudo isso acontecer também do outro lado da cidade.

O que é ser Nigéria Futebol Clube?

Miizle/Luz: Falarei em nome de todos, eu acho que é ser você mesmo, se expressar do jeito que você gosta e do jeito que você quer. Dá para ver que eu e o Sasso estamos de palhaço, de um jeito completamente diferente deles, mas que a gente tá no jeito, na nossa personalidade. Então, tudo o que fazemos é o que somos ou o que queremos ser.

Sasso: Para mim, ser Nigéria Futebol Clube é muito sobre ser queer. O queer é excêntrico, exagerado, expressivo, e eu sinto que o Nigéria tem muito em ser queer, obviamente porque tem pessoas queer, mas principalmente por conta dessa questão de ser muito livre. Todo o show do Nigéria que você vai é diferente. Hoje foi completamente diferente e é sempre muito divertido.

Vocês já falaram sobre a influência do Boogarins, como foi importante vê-los pela primeira vez, e de certa forma a Nigéria também está se tornando uma outra referência pra pessoas pretas, com outro estilo. Vocês concordam?

Conceição: Esses tempos atrás eu cheguei à conclusão que o preto do mundo é o queer. O não-branco do mundo é o queer. E essa coisa da branquitude é uma coisa...

As pessoas que geralmente falam que somos referência são nossos amigos que estão aqui e que, na verdade, são as pessoas que nós referenciamos. Não procuramos referência em lugares distantes, necessariamente. Tanto que o Boogarins até então parecia distante e, quando fomos ver, os caras estavam super felizes com a nossa presença e estavam lá e trocando uma ideia. 

Hoje é uma noite queer, nós e as Veras somos bem queer e é lindo isso, estamos ocupando esse espaço com tanta gente. E eu quero dar um salve para a Palatável Records por esse convite. É um bagulho louco, porque não imaginávamos que estaríamos aqui na Casa Natura, uma casa que está recebendo tantos artistas nacionais e internacionais. Pessoas que são referência para nós tocando no mesmo palco.

Também tocamos no Sesc Pompéia. E isso vai expandindo, a galera que vai conhecendo comenta conosco que se reconhece. Ainda assim, para nós é uma via de mão dupla. Na verdade, você é minha referência, sabe? Porque nós estamos o tempo todo aprendendo. As pessoas e suas diferenças mudam a nossa arte todos os dias. Uma fala muda sua arte, um olhar muda sua arte. Ser preto é ser queer nesse mundão que nós vivemos. Acho que é muito importante pensar sobre isso. E ser queer é ser livre.

E quando você é livre, você atrapalha a individualidade dos outros que estão presos no circuito do sistema que fez essas pessoas ficarem presas. Acho que o nosso trabalho também é ter uma malemolência de trocar ideia com esses conservadores. E dar um jeito de falar ‘mano, presta atenção’. Você não tá entendendo que somos do amor? Não estamos chapando e vocês tão querendo matar um bando de gente. Vocês estão matando um bando de gente e não tem por que matar tudo isso. Temos que ser amor e luz, tá ligado? E hoje a gente tá aqui com Luz e Sasso.

Miizle/Luz: Eu queria pontuar um negócio que o PH falou, que o preconceito realmente é uma questão muito inútil. Eu falei isso no palco e o preconceito não serve de nada a não ser matar mais gente. Então, espero do fundo do meu coração que tudo o que eu falei hoje ecoe e que as pessoas preconceituosas se afoguem nas próprias palavras.

Vocês estão acompanhados por uma rede de outros artistas fodas. Podem indicar alguns?

Todos: Todas as bandas que passam pelo Veganaassoo são sempre bandas muito legais. A gente tem que criar um selo pra resolver a nossa vida. Tem que fazer uma página bonita para todo mundo, é muita gente que passa pela nossa vida e fica. Entre elas:

Conjunto Liberi (@conjuntoliberi)
Sagrados Anônimos (@sagradosanonimos)
Vinco (@vincobr_)
Tubo de Ensaio (@tubodensaio__)
D'Artagnan Não Mora Mais Aqui (@dartagnannaomoramaisaqui)
Victor Rama (@victoramax)
Jovita (@nossajovita)
Sexy (@sexyband)
Aygam (@aygam__)
Rã (@osomdaran)
Stoned Pipe (@stonedpipeband)
188Virgil (ouça aqui)
Gustavo Vitor Hamada (ouça aqui)
Gelo Geleia (@gelo.geleia)
Sutil Modelo Novo (@sutilmodelonovo)
ESCÄRRO (@escarroisdead)
Big (@ehobiiiiiig)
NxOxIxAxDxO (@n.o.i.a.d.o___)
De Carne e Flor (@decarneeflor)
Magnólia (@magnoliascreamo)
Sophia Chablau (@sophiachablau)
Defdot (@defdot)
MEE (@meeisdead)
Pele Fria (@pelefria)
Ato Fálico (@xatofalicox)
Malditos Jovens do Reggae (@malditosjovensdoreggae)

Vi vocês comentando a diferença de tocar na Vila Madalena, por exemplo, ou em Itaquaquecetuba. De qualquer forma, vocês estão rodando por palcos cada vez maiores e ganhando mais visibilidade. Como vocês enxergam esses espaços e o que eles significam pra banda? 

Rodrigo: Eu acho que é mais importante a gente ocupar Itaquaquecetuba do que ocupar a Vila Madalena. Ao mesmo tempo que ficamos felizes, fica aquele gosto meio amargo porque queríamos estar fazendo um show grande desse, com toda essa produção, pelos lados lá da zona leste, pelas quebradinhas igual o Racionais fazia. Esse é nosso grande sonho. Mas, para chegar lá, a gente precisa passar nesses outros lugares. É como se tivéssemos que cumprir uma quest nas casas de show grandes do centro de São Paulo para conseguir chamar a atenção dos produtores, trocar uma ideia e levar esse show grande para nossa quebrada.

Conceição: Um salve para a pista de skate de Poá. Fizemos um festival lá com Perfidia, Comunautas, Nuyk e Tuzin, rappers muito bons. Nesse dia, acordei às 6 horas da manhã e fiquei fora de casa o dia inteiro. Cheguei 6 horas da manhã do outro dia já trabalhando, levando caixas. Bruninho Sound System fortaleceu o som, o Zulu da Uneafro Brasil fez um trabalho lindo e árduo, não vou citar todos porque foi muita gente. Todo mundo que estava lá somou muito e fez esse evento acontecer na pista de skate de uma maneira linda.

Flyer do Festival das Artes, realizado em abril de 2026

Esse dia foi louco porque organizar uma coisa na rua envolve muita gente. Falamos com o cara da prefeitura, ele começou: “Pô, isso aqui é legal, conversa com os skatistas da antiga”. “Pô, isso aqui é legal, conversa com o cara que tá na adega”. “Pô, isso aqui é legal, faz mais evento, traz mais gente, porque a minha adega tá lotada”.

E isso na quebrada, o evento todo independente. Não foi um evento que teve um edital, conseguimos autorizar com a prefeitura, que muito solícita. Muitas vezes existe resistência porque a galera associa o reggae e essas bandas ao consumo de cannabis ou álcool, com concentração de jovens e arruaça.
Temos que lutar para acabar com isso e voltar a efervescer o que o movimento do hip-hop construiu na rua. Não só depender de editais e desse tipo de apoio, mas depender também do apoio mútuo dessa massa organizada, louca, cultural e genial. Tudo vai dar certo porque tem muita gente bem intencionada e que sabe o que faz. 

Tocar na quebrada é quilometricamente mais importante do que tocar no centro. Na quebrada, você vai conhecer as pessoas que depois vão para o centro, o que é nosso maior desafio. Tem gente que tá na quebrada e não quer sair dos extremos. Ficamos falando "quebrada", é até foda porque é um vocabulário, mas moramos nos extremos da cidade, é muito longe do centro, muito longe daqui. E, enfim, as pessoas têm medo de sair.

O cansaço físico e mental, a ignorância, o pacto da branquitude não velado e essas coisas vão agoniando, e as pessoas pulam fora, desistem, não querem continuar nesse caminho. Também entendemos. Falta tempo. O Derek mesmo tá com um trampo seis por zero. Ele tá aqui hoje por sorte. Dito isso, fim da escala 6 por 1.

Temos que continuar lutando na rua e os movimentos de banda têm que adotar posturas cada vez mais políticas, no sentido precisarmos disso.

Vou dar um exemplo muito específico. Fomos para Campinas e tomamos vários tapas na cara. O primeiro é que Campinas é mais cidade do que São Paulo. Aqui não é uma cidade, é um enigma, uma megalomania onde tudo é longe e tudo te exclui. Em Campinas, as ruas são pequenas, tem cara de cidade. Fomos até a Casa do Hip-Hop e vimos um movimento muito grande, com uma resistência muito forte. Estávamos numa exposição de pessoas PCD e foi foda. Trocamos ideia com todo mundo que estava lá.

Eu não sei como aquilo tudo aconteceu, não sei se foi uma grande organização da própria Casa do Hip Hop, porque lá tem uma organização muito ferrenha, que faz reuniões abertas mensalmente, um bagulho bem em cabeça… mas chegando lá tinha um banquete de comida. Era uma exposição, eles não estavam esperando uma banda chegar. E esse bagulho de comer a comida nessa exposição das pessoas PCD foi uma parada que eu pensei: “Mano, que bagulho louco”. Estávamos com fome e os caras falaram: “Vem, come aqui. É para vocês comerem mesmo, é só vocês que vão vir hoje”. A cidade tava movimentada e, no fim, só nós fomos e ficamos a noite toda lá.

E, no meio da rua, uma mulher passando perguntou se tínhamos comida. Eu peguei um Club Social e falei: “Desce aqui, vira ali na Casa do Hip-Hop e pergunta se é onde tá tendo a exposição das pessoas PCD. Vai lá e seja feliz”. E ela, com vergonha: “Mas acho que não dá para pegar comida”. A gente: “Não, mas tá tendo doação de alimentação, vai lá mesmo”. Ela já saiu toda feliz e foi lá.

Foi um bagulho muito emocionante para nós. É uma parada que mexe muito com o nosso coração, com a nossa mente, porque mostra que o que queremos fazer é isso mesmo. A música e esses palcos são um pano de fundo, na verdade, para uma luta. A luta para se manter vivo, a luta para não morrer nas esquinas, para continuar aqui fazendo a nossa arte e fazendo várias outras pessoas continuarem vivas, tá ligado? Então, essa é a brisa, essa é a parada do Nigéria Futebol Clube.

Nigéria Futebol Clube na Casa Natura

Nigéria Futebol Clube - Foto: Eduardo Silveira (@edu_csilveira)

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