Segundo disco da banda foi lançado nesta terça-feira (22)
Segundo disco da banda foi lançado nesta terça-feira (22)

A banda Soprü lançou, nesta terça-feira (22), seu novo disco, intitulado Cidade do Suor. A obra mistura indie pop com referências regionais e é um forte lembrete de como a cena independente do Norte segue viva e sempre pronta para se reinventar.
Diretamente de Palmas (TO), a banda é formada por Carvalho Samuel (vocais), Wellis Raik (guitarra), Lucas de Jesus (saxofone e clarinete), Caio Paiva (sintetizadores e guitarra) e Iury Grooveman (baixo e sintetizadores). Pedro Henrique Sousa participa das baterias e Frederico Garibalde assina a produção musical, mixagem e parte das guitarras.
Em entrevista, o grupo refletiu sobre as principais inspirações para a criação de Cidade do Suor, as mudanças enfrentadas ao longo dos anos e os planos para uma possível turnê do disco.
Vi que vocês falaram de algumas referências internacionais para a composição do disco, mas queria saber se vocês possuem algumas referencias nacionais também.
Caio: Vou puxar o saco do nosso selo. A banda Pluma é uma grande referência. Fomos a um show deles em Santa Rita do Sapucaí e foi o nosso primeiro contato com a Rockambole. Gravamos o último EP com eles e colamos no show depois. Eu pirei no disco, achei muito sinistros os synths e as texturas.
Iuri: Do lado da música nacional, eu também acabei me inspirando nas bandas ali do selo. Ouvi muita coisa da Aquino. Reparei que eles têm um trabalho de synths muito massa. E a Pluma não tem jeito, eles são referência nessa área dos sintetizadores, que é uma coisa que viemos explorando muito nesse álbum. Se fosse listar duas referências, seriam essas.
Carvalho Samuel: Escutamos muito a galera atual, até porque queremos fazer coisas que dialoguem com outros artistas. O rolê é muito coletivo, então acompanhamos as bandas que estão no mesmo corre que nós. É importante demais, até para entendermos e formarmos um público e alcançarmos essa galera também que escuta eles. Qualquer pessoa que quer começar um trabalho musical tem que escutar muito bem quem está fazendo música atualmente, quem são os seus contemporâneos. Às vezes, os músicos ficam muito presos em referências do passado que são importantes também. No início do álbum, tínhamos mais referências antigas, como Los Hermanos. Atualmente, não escutamos mais; deve ter uma coisa ou outra ali, porque quase todo mundo da banda escutou muito, então acaba que conversa um pouco. Mas hoje, esse álbum se inspira principalmente nas atualidades da música brasileira.
Lucas: Eu sou da música instrumental, escuto as coisas mais diferentes dos meninos. Escuto muito chorinho, samba, bossa. Inclusive, busquei trazer essas referências no álbum, esses toques da música instrumental brasileira. Tem muita referência do Hermeto Pascoal, da bossa, do samba no geral. Em ‘Douraddo’ tem essa brincadeira que fazemos, com uma citação a ‘Bebê’ do Hermeto Pascoal, ‘Garota de Ipanema’, Wave’. Enfim, é a vibe que destoa mais da banda. Mas, em conjunto, nos completamos bastante nesse aspecto.
Como vocês enxergam a cena independente de Palmas? Sentem que melhorou?
Caio: O Tocantins não é um estado muito populoso. Inclusive, até vi esses dias um vídeo no TikTok falando que todos os estados ao redor dele são bem mais habitados, com pelo menos o dobro de pessoas. Não tem tanta gente como em outros lugares da região.
Além disso, nós somos praticamente a nova geração, de estarmos fazendo música ali há pelo menos 10 anos. Antes de nós, só existe uma galera bem mais velha, de 40 anos pelo menos. Então é uma cena rica, com muitos estilos, tem muita gente massa participando, só que é nova. Inclusive é nova de ter lugares para tocar. O TK [Tekoa Hub] mesmo, que é um dos maiores, é um espaço que está renovando, tem novas propostas, está testando coisas novas e tentando achar gente dessa nova geração que cresceu na internet e está fazendo 18, 19 anos, para fazer um som no bar. Tem gente que vai ao TK e começa a ter ideia de fazer banda ou algum outro tipo de projeto artístico.
Carvalho Samuel: Tem muitos compositores, letristas e cantores. Só que o fraco aqui são os instrumentistas. Baixista, o nosso próprio baterista é contratado. Porque não conseguimos encontrar um integrante fixo, um cara que vai se dedicar exclusivamente à banda para tocar conosco, porque não tem. Se o cara é bom, ele automaticamente será bem demandado. O instrumentista está muito mais concentrado no sertanejo, no gospel, nas igrejas. No rolê independente, não tem. Isso faz o rolê, às vezes, dar uma queda. Mas exisite muita gente compondo, que está conseguindo produzir músicas, fazer um álbum.
Com a inteligência artificial o artista até consegue produzir um instrumental, que funciona junto com a letra. Falta mais a questão das bandas mesmo, que é uma parada que está em extinção no Brasil todo. Cada vez menos bandas vão surgindo, porque é muita missão, com a estrutura, os gastos, você reunir várias pessoas em um lugar para ensaiar e acertar a agenda, tudo isso é uma demanda gigantesca. No início, pode parecer simples, mas, no decorrer dos anos, são só algumas que conseguem realmente aguentar o tranco. Porque é puxado.Sou músico na cidade há um tempo, então já vi alguns ciclos de ter uma cena muito rica, de ter festivais, de ter diversas bandas e, depois, estarmos vivendo uma baixa.
Agora vejo uma nova fase na cidade. Tem muitos artistas produzindo de maneira independente. Chegaram as placas de áudio, os computadores, os controladores MIDI. A galera compra o microfone, começa a gravar em casa… Também estou vendo muito desse movimento acontecendo hoje em dia, da galera querendo criar um som para as outras pessoas. Vejo uma nova fase da cena aqui na cidade.
Ainda sobre esse papo de regiões, queria pedir a recomendação de algumas bandas da região Norte que nós precisamos escutar.
Carvalho Samuel: Fernanda Hofman, gosto muito. É uma garota que compõe MPB. Tem uma banda que a gente tocava junto, mas hoje elas não estão mais em atividade, embora tenham projetos gravados, que é a Boca de Cantora e os Piabas. Gostamos da Jambu, curto para caramba. Móia Cumbia, tem várias.
Além de nós, a Vocifer é uma das bandas do Tocantins que mais roda o Brasil fazendo show. Eles já têm um alcance até internacional de gravadora, produção de distribuição de vinil; os caras são muito bons. Mas eles já são do metal, que é uma cena muito peculiar, não dialoga muito com as outras, até porque cantam em inglês. Mas eles são gente fina demais e, nas músicas deles, falam do estado, da região Norte, das mitologias, e os gringos piram.
Caio: Tem também o Kauê Alves, muito amigo nosso. O produtor do nosso disco, Fred Garibaldi, fez o dele também. Tem até um feat com o Paulo Novaes no disco do Kauê.
Lucas: Daniel Kovalski é uma puta referência. Esse é um cara fenomenal. Ele está lançando um álbum agora, ele faz uns lances com sons da natureza, barulhos de pássaros. Fica a dica para a galera.
É um álbum que reflete muito sobre o ambiente em que a banda está inserida, com até alguns momentos de som meio ambiental mesmo. Queria perguntar como isso reflete no processo de composição de vocês.
Caio: O Samuel escreveu todas as letras das músicas. Assim que conseguimos definir qual era o conceito do álbum - que é um paralelo entre Roma e Palmas - procurei representar imagens nos sons. Achei as músicas muito visuais, que retratam acontecimentos da cidade. Tipo, falamos sobre uma coisa que acontece regularmente no final de semana por aqui: alguma quadra sempre fica sem energia porque alguém chapou o carro em um poste.
Já ‘Linguagem dos Homens’, diz: ‘fui embora fui para Roma a cidade pegou fogo.’ O beat dela também tem uma caminhadinha, que nos faz visualizar uma jornada ali. Ela tem muitos sound effects que procuramos colocar no disco que que remetem a essa lançe de contar a história, de você passar ideias e experiências físicas e visuais, de várias formas.
Nos efeitos sonoros das músicas você vai perceber que tem muita coisa de que parece jogo de videogame, como forma de representação visual, tanto no som quanto na na música.
Carvalho Samuel: Tem até um sample com barulho de algo queimado, que fomos captando. Também pegamos alguns sons da internet para realmente moldar o som do ambiente. Não é à toa que o álbum se chama Cidade do Suor. O intuito para trazer uma visão não tão idealizada, mas ao mesmo tempo não pessimista. A ideia era criar uma história ali, de ver coisas novas, diferentes.
Nas composições, percebo muito a dualidade entre a cidade X natureza. Como vocês sentem o impacto desses dois ambientes no dia a dia da banda?
Carvalho Samuel: Vou pegar o exemplo da música ‘Douraddo’. Ela faz referência ao capim-dourado de maneira pincelada, trazendo ele para um tema geral que é o amor. A ideia é sempre pegar esses elementos regionais e trazê-los para o universal. Às vezes a questão da a música regional fica muito batida, mas se você pegar aquele símbolo e trazer para o universal, fica mais interessante. O ambiente e a natureza que nos cerca estão sempre envolvidos.
Aqui, estamos em uma cidade que está crescendo - se não me engano, é a que mais cresce no Brasil - e uma das mais quentes também. Temos ao mesmo tempo muito contato com a natureza em uma cidade que está se desenvolvendo. É realmente essa dualidade do velho com o novo, da natureza com com o urbano.
Lucas: Buscamos trazer um nesse álbum muita identificação da população. Por exemplo, em ‘Arraiascéus’: julho é nossa temporada de praia, é a época que começa a fazer muito calor e as praias lotam. E aqui tem muita arraia, sempre tem um acidente, é algo cotidiano para o tocantinense. Brincamos com esses elementos que trazem uma identificação para quem mora aqui e também é legal para externalizar isso para o restante do país. O que acaba incomodando mais por aqui é o calor mesmo, que cada vez está mais absurdo (risos). Falamos disso no álbum também.
Caio: Às vezes você está andando na avenida principal e vê uma arara. Tem muito mato, cachoeira; a natureza está muito presente, graças a Deus.
Carvalho Samuel: Tinha um movimento que me incomodava um pouco na música indie que foca muito no relacionamento, no amor, mas acaba ficando só por isso. Nossas faixas falam de romance, mas não estão presas apenas na paixão do cara por alguém. Ele teve o coração partido, mas está inserido no contexto da cidade, que é algo muito maior. Foi uma coisa consciente que deu certo no final.
Queria que vocês falassem sobre as participações da Jady Aline e da Luna Esand. Eu achei que ficaram incríveis, como funcionou essa parceria?
Carvalho Samuel: Tem muito a questão do timbre vocal feminino, principalmente. Para algumas músicas, fazia todo o sentido ter isso para agregar o som, fez parte da composição como se fosse um arranjo instrumental. A Luna aparece só no final, mas a voz dela é muito específica. Queríamos uma pessoa de fora do Brasil - porque estamos falando de 'Linguagem dos Homens' - e tem toda a questão de entrar uma pessoa cantando em espanhol.
Também queremos dar espaço para artistas novos, que é o caso da Jady, uma mana daqui de Palmas que canta muito bem.
Em ‘Portal da Outra Vila’, fizemos um feat com todo mundo aqui que conseguimos chamar para gravar para fazer uma música. Ela é a última música e tem todo mundo da cidade cantando, também com a ideia de criarmos um lance coletivo. Seria até seria hipócrita fazer um álbum sobre uma cidade e não ser um coletivo total. Porque é isso que faz a cidade ser o que ela é.
Também queria falar sobre a capa do disco. Como foi a escolha desses elementos para ilustrá-la?
Carvalho Samuel: Foi com a ajuda das meninas do Cerrado [MPB]. A ideia era fazer um paralelo entre Palmas e a Roma Antiga. O Cerrado pega fogo, e teve um momento da Roma Antiga que pegou fogo e que tudo foi consumido por ele.
O mito de criação de Roma, você tem Rômulo e Remo, que são alimentados por um lobo. Falei: ‘Cara, e se fosse um lobo-guará?’. Fomos substituindo esses elementos. Em ‘Douraddo’ tem o Coliseu, que nas pinturas parece ser da cor dourada. Inserimos elementos do Cerrado, como a capivara…
Caio: Nossa cidade tem o Palácio Araguaia e tem esse lance da política, do coronelismo, da galera ter muito poder. Isso tem um pé nesse lance de impérios, que me lembra Roma também.
Vocês estão planejando fazer alguma turnê em breve?
Carvalho Samuel: Primeiro, ficamos suplentes em um edital para turnê. Batemos na trave. Sem dinheiro é mais difícil, tem que se planejar mais, e também precisamos ficar atentos ao timing. Colar em São Paulo é o mínimo, porque é onde está concentrada a maior parte do nosso público.
Caio: Estamos tentando fazer uma rota com cidades para poder sair daqui e passar por Brasília, Goiânia, Uberlândia, Uberaba, tentar um caminho para esse grande centro que é São Paulo.
Iuri: Em Palmas, nem somos tão conhecidos, fizemos um show recentemente e muita gente da cidade começou a saber de nós agora.
É o segundo disco da banda, 5 anos após o primeiro, que foi lançado em 2021. Quais foram as principais mudanças do início até aqui?
Iuri: Entrei na banda em 2020, na gravação do primeiro álbum. Eles já tinham uma identidade muito forte. Mas, ao mesmo tempo, com a minha entrada, começamos a trocar ideias musicais, referências. Nisso, percebi que estávamos nos descobrindo também como artistas, entendendo ali o que curtíamos. Depois, gravamos um EP que foi mais para explorarmos um pouco esse lado.
Para chegarmos nesse disco, algumas coisas mudaram, o Caio começou a tocar os teclados e sintetizadores. Nesse álbum, ele participou ativamente da produção, com um direcionamento muito grande nos arranjos e na estrutura das músicas. Isso acabou expandindo muito a sonoridade que tínhamos antes e trazendo uma sonoridade mais complexa e eletrônica.
Ainda estamos no meio desse processo; não estamos nem na metade disso, porque somos muito musicais, gostamos de coisas muito diferentes, artistas muito variados e sinto que nunca quisemos nos limitar e definir um gênero ou um caminho certo para seguir. Vejo que estamos em constante mudança e nem imagino o que faremos no próximo disco. Às vezes, podemos largar os teclados de lado um pouco e fazer alguma coisa acústica, por exemplo.
Carvalho Samuel: O que mudou também, de dois anos para cá, foi a formação. É normal de banda, você começa com uma galera e o projeto não pode parar. Vamos nos adaptando e cada um tem suas próprias demandas, seus desafios, e algumas coisas vão mudando, mas sempre tentamos fazer o máximo para sempre manter o grupo unido. E esse grupo aqui para mim é o como o final stage. De alguns anos para cá, estamos com mais vontade de tocar, de colar nos rolês, no geral não fazíamos muito isso.
Fizemos um show no Sesc para 6, 7 mil pessoas, foi muito massa. Foi a primeira vez que tocamos em um palco grande e foi muito legal. Estamos tocando muito melhor, estamos muito bem mais produzidos, está muito mais fluido.
Amo muito produzir, independente de estar tocando não, é muito minha pira também. Acaba que, por causa disso, fiquei meio sem me importar tanto por não estar tocando. Agora, fico pensando: ‘pô, tinha que ter tocado mais’. Estou indo atrás do prejuízo para tocar mais pelos cantos.
Caio: Estamos mais conscientes também de onde queremos chegar, os lugares que queremos tocar. Está ficando cada vez mais fácil ver os caminhos, do que fazer como banda, como grupo, como movimento cultural...
Lucas: O Iuri falou que estamos na metade do caminho dessa descoberta, mas acho que não tem um final, porque somos muito diferentes. Temos muitos denominadores em comum, mas também temos muitas referências diferentes. Quando vamos rearranjando elas, sempre sai alguma coisa muito diferente do que já fizemos em um último álbum ou single.
De 5 anos para cá também criamos muita maturidade, em vários aspectos. Nessa parte de compor, na parte de produção, a parte técnica, temos muito mais segurança. Saímos para tocar em Brasília, Goiânia, São Paulo e fomos ganhando mais segurança. Tanto que sinto que esse show que fizemos em comemoração de 80 anos do Sesc foi um dos nossos melhores shows. Esperava que fôssemos ficar nervosos e foi super fluido porque estamos criando essa maturidade. Isso é bacana também, olhando para para o primeiro álbum, é nítida essa mudança.
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