Entre delicadeza, melancolia e peso, quarto álbum da banda chega amanhã às plataformas digitais e pode ser ouvido antecipadamente a seguir
Entre delicadeza, melancolia e peso, quarto álbum da banda chega amanhã às plataformas digitais e pode ser ouvido antecipadamente a seguir

A banda magnólia lança, nesta sexta-feira (4), o disco ternura e violência. É o quarto álbum de sua carreira e o primeiro gravado com a nova formação, composta por Caru Frascaroli (vocalista e tecladista), Fábio Shiguemori (guitarra lead), Davi Scarpa (baixo), Luccas Leme (guitarra base) e Maya Soares (bateria). Em exclusividade ao Rota Indie, o grupo antecipa a audição das faixas do disco. Ouça ao final da matéria.
A obra começou a ser produzida no final da fase solo da magnólia e ganhou uma nova interpretação com a chegada dos quatro integrantes, que agregaram novas referências e ampliaram a sonoridade que vinha sendo construída até então.
“Desde o começo do magnólia, eu sinto que trazia os dois tipos de sonoridade — do lofi e indie folk ao screamo — de forma muito separada. O ‘death of a rabbit’ me trouxe essa viradinha de chave e sinto que conseguimos pegar a inspiração pra evoluir nosso som, ainda mantendo muito bem a identidade”, completou o vocalista. Além da banda norte-americana, outras inspirações para o projeto foram Beforeyouleave, Frail Body, Circa Survive, Starry Cat, Teen Suicide, The Michophones e George Harrison.
Segundo Fábio, os integrantes têm referências bastante distintas, mas o ponto chave é a forma como cada criação os influencia durante o processo. “A inspiração não necessariamente precisa vir de uma estética ou sonoridade que se almeja alcançar, mas ser uma obra que te mobilize para o processo de criação artística. Dito isso, apesar de cada um estar em uma fase musical diferente durante o período de composição, todos compartilham a mesma paixão pela música e a intersecção desses diferentes gêneros, traduzidos para a linguagem do screamo, é o que deixa esse álbum tão especial.”
A sonoridade screamo fofo implica na alternância entre ritmos lentos e acelerados, vocais melódicos e intensos e letras delicadas e viscerais. Apesar de partir de elementos aparentemente opostos, o resultado não é uma montanha-russa de altos e baixos, mas a coexistência desses estilos e sentimentos em um mesmo álbum.
Embora tenha influência gringa, a brasilidade também aparece nas composições. “Antes de qualquer coisa, somos brasileiros e crescemos em contato com a cultura e música brasileira. Esse é o tipo de coisa que, mesmo sem a intenção, se mostra presente pelas raízes da nossa musicalidade, através de ritmos, melodias e letras”, explicou Maya.
“Mesmo que o screamo seja algo nascido nos Estados Unidos, sem qualquer tipo de raiz brasileira, ele se faz presente há duas décadas não só aqui, mas em diversos países da América Latina. Algumas das bandas e projetos desses países inspiraram também nossa formação e consolidação do que veio a se tornar o som do magnólia, principalmente neste último álbum”, completou.
Foto: gabi ferraro (@gabiii_ferraro)
O álbum passa por temas como amor, amizade, nostalgia, saúde mental, corpo, perdas e também questões sociais e políticas. É nesse mix de sentimentos que magnólia encontra uma forma de expor suas vulnerabilidades e apresentar ao ouvinte uma realidade que, ainda que não seja uma vivência universal, atravessa a todos:
“O mundo atual gira em torno da política. As questões da sociedade de certa forma seguem aquilo que a política empurra sobre nós, como escalas exaustivas de trabalho, transporte ruim, falta de segurança ou estabilidade, violência de gênero e o preconceito. Todas essas questões são resultado da política burguesa que governa nosso país há 500 anos e influenciam diretamente nosso estado mental e físico”, comentou a baterista.
“Os artistas, assim como todas outras áreas de atuação, precisam estar inseridos na realidade para que, assim, seus trabalhos possam conversar com a sociedade e tornarem-se de fato relevantes e tocantes na vida das pessoas”, encerrou.
Para além da dimensão imaginária, a dinâmica de ternura e violência também aparece na capa, assinada por Caru e fotografada por Laura Reis. Nela, a lingerie de renda e as cores contrastam com a adaga empunhada pela personagem, enquanto o simbólico anel de lebre representa a trajetória da banda. Diferentemente de outros lançamentos, que trazem ilustrações nas capas, a escolha pela fotografia acompanha as transformações vividas pelo grupo.
“A ideia da capa fazia mais sentido sendo uma fotografia, foi pra variar mesmo. Dá pra dizer que pode marcar também o início dessa nova fase. A fotografia é o contraste do que seria ternura e violência no erotismo, mas o álbum não é estritamente sobre esse tipo de representação da ternura e violência”, disse Davi.
Esse é também o primeiro álbum com a produção de terceiros, gravado entre abril e maio no Estúdio Costella com a participação de Alexandre Capilé e Gabriel Zander. Caru descreveu a sensação de deixar o controle: “Um pouco libertadora, eu diria. Ainda mais com pessoas com muito mais experiência em produção, você acaba confiando bem mais. Pude pensar em aspectos bem mais criativos do álbum e deixar a parte técnica pro Capilé, Bill, Maya e Pedro.”
1. ternura e violência: “Foi escrita para servir como prelúdio e melodia central do álbum, tem inspiração no disco Imaginal Disk de Magdalena Bay e na sonoridade de The Microphones.” – Caru
2. canção de amor para amigos: “Uma love song de amizade! Escrita em um momento de muita felicidade e criação de coisas novas. A sonoridade foi inspirada no post-rock da banda The World is a Beautiful Place and I am No Longer Afraid to Die e na camada de elementos de Carissa's Weird.” – Caru
3. temporada de amoras: “Essa música é sobre amor romântico e como é bonito poder ver a pessoa amada envelhecer e mudar, mas ao mesmo tempo ver os ciclos se repetindo. No meu caso, a temporada das amoras marca o início do meu relacionamento, mas que sempre se renova naturalmente, todos os anos. Sonoramente, ela foi muito inspirada pela bedroom screamo de Your Arms Are My Cocoon.” – Caru
4. moinho de vento: “Comecei a compor na passagem do ano de 2025 para 2026. A data final para a entrega das músicas estava chegando e sentia que não saia do lugar. Nessa época, comecei a revisitar antigos artistas em que era apaixonado, mas fui parando de ouvir ao longo do tempo por ter mergulhado de cabeça no emo. Um deles foi o George Harrison, com seu álbum All Things Must Pass – o reencantamento foi instantâneo. Não só memórias de anos atrás começaram a aflorar, mas como muitos dos sentimentos que giravam em torno de mim durante a juventude. A mensagem do disco, sobre a passagem do tempo, transformação, coexistência de opostos e o sentimento de nostalgia que me gerou, pareceu a inspiração perfeita para uma música do ternura e violência. O nome vem de uma música dele, chamada Run of the Mill, uma expressão para o sentimento de mediocridade, que também pareceu encaixar perfeitamente em como me sentia durante o processo de composição. E o Davi [Scarpa] me ajudou muito, sempre digo que a música é nossa.” – Fábio
5. amar é assistir alguém morrer: “Nessa eu retrato o sentimento de estar extremamente feliz por estar vivo e finalmente perder o medo de morrer, estar satisfeito com a vida e perceber o quanto ela pode ser romântica. A sonoridade é inspirada no slacker-rock de Teen Suicide.” – Caru
6. sentença: “É uma música escrita como desabafo ao diagnóstico de bipolaridade. O nome é bastante autoexplicativo, já que esse transtorno de humor não tem cura. A letra descreve a confusão mental em situações gerais da vida e o sentimento de deslocamento, chegando, por fim, ao arrependimento de atitudes tomadas em fases de mania e hipomania. Fica implícito o quanto uma pessoa pode fazer mal a si mesma nessas situações. As referências para o instrumental e a sonoridade da faixa incluem bandas como Oakwood, William Bonney e Orchid, além de uma bateria com levadas de breakcore e blast beats.” – Luccas
“A parte que eu canto, eu escrevi pensando no sentimento de usar o sexo como fuga pra dismorfia corporal e disforia de gênero.” – Caru
7. sonho de virgínia em águas profundas: “Sobre ser uma pessoa jovem e ver a humanidade caminhando para um lento fim. Ter que lutar contra a tentação de ignorar esse fato e continuar lutando contra esse trágico fim. Sonoridade inspirada pelo screamo de Frail Body e timbres de Circa Survive.” – Caru
8. desperdício de tinta: “Essa música é sobre duas coisas: como a propaganda do relacionamento ideal pode comprometer seu vínculo com alguém, o fazendo idealizar algo que antes nem era um desejo seu. E também é uma diss track pro Bolsonaro! No dia em que ele foi condenado, escrevi a segunda metade da letra mudando a temática por pura felicidade e vontade de escrever sobre isso, aproveitando que a música já tinha uma sonoridade mais nervosa. A sonoridade é inspirada pelos breakdowns de Beforeyouleave e Meia Lua e Soco, a ideia da escaleta veio diretamente de Your Arms Are My Cocoon.” – Caru
9. neep: “Nessa música, eu estabeleci uma analogia entre alguém preso no passado como uma árvore robusta com raízes profundas fixas ao solo. Além de estar presa no passado, também está presa ao orgulho. Não consegue se mover para ir atrás da pessoa que perdeu e sente falta. A única tentativa é por meio da arte, e assim nasceu essa música. Sonoramente é inspirada na banda Mitsubishi Suicide e no filme ‘Hotarubi no Mori e’” – Caru
10. seja delicado por favor: “A principal temática está no sentimento de confusão ao não saber se sente falta ou não dos seus colegas da escola e tentar buscar o sentimento da pré-adolescência ao tentar entrar em contato com eles, sabendo que ser amigo deles não é um desejo genuíno seu. O desejo está em talvez revisitar a inocência e a mágica que se tem quando adolescente. Porém, há aquele único amigo da mesma época que, mesmo não mais se identificando com ele, você ainda gostaria de tê-lo perto pelo quanto ele significou e ainda significa para você. A sonoridade é inspirada pelo bedroom screamo de Your Arms Are My Cocoon, pelos timbres de Circa Survive, o indie-folk de Starry Cat e o trance hexd de Sienna Sleep.” – Caru
© 2026 Todos os direitos reservados