Produzindo novo álbum, Adorável Clichê mira o shoegaze sem se prender ao rótulo

No palco do Balaclava Fest neste final de semana, banda prepara apresentação pontual em São Paulo enquanto prepara novo álbum – com spoilers!

Desde “sonhos que nunca morrem” (2024), a Adorável Clichê vem dando forma ao que pretende fazer em seguida. Ainda em composição, o próximo álbum começa a ganhar contornos mais definidos e deve ser gravado em 2027, possivelmente no primeiro semestre.

Ao longo de 13 anos de banda e algumas mudanças de formação, Gabrielle Philippi (voz e guitarra), Marlon Lopes (guitarra e voz), Gabriel Geisler (baixo) e Felipe Protski (teclado) parecem estar em sua fase mais madura — apesar da preocupação em não soarem “crescidos demais”.

“Não queremos fazer algo ‘maduro’ só para soar crescidinho. Queremos fazer algo legal. Algo que gostemos de executar ao vivo e que continue nos motivando a produzir. Temos medo de virar uma banda que quer fazer um som maduro só porque virou adulta e acabar fazendo um negócio chato”, comentou Gabi em entrevista ao Rota Indie.

“Depois desse tempo, estamos mais preocupados com a qualidade do que vamos lançar. Nos cobramos para fazer as coisas no tempo em que elas têm que acontecer. Se demorar cinco meses a mais, tudo bem. O importante é lançar e ficar bom porque, depois, aquela gravação vai ficar para sempre”, explicou Marlon.

O novo projeto está em fase de composição, com sessões em um estúdio montado na casa da mãe do vocalista em Blumenau (SC), e provavelmente será gravado em 2027 em São Paulo. 

No ano passado, eles falaram à Moodgate que pretendiam mudar bastante a sonoridade, mas, agora, a rota já foi recalculada. O álbum deve seguir uma linha com bastante guitarra e um pouco de violão, se aproximando mais do shoegaze e do rock alternativo dos anos 90. 

“Uma boa referência para a vibe do álbum é ‘CDs’, que tocamos no Cultura Livre e planejamos colocar dentro do álbum. Provavelmente vamos mudar algumas coisas, mas foi até bom gravar essa versão para vermos outras possibilidades. No show do Balaclava Fest, vamos tocar diferente, então meio que vai ser inédita de novo. Nosso foco é fazer algo legal de tocar ao vivo e achamos que ficou massa.”

“Fazer um álbum é um processo que demanda muita energia. É um desgaste emocional grande porque tratamos a música como uma sessão de descarrego. Não é nem pelo lance de gravar ou fazer ensaio. O desgaste é pensar, olhar no espelho e conversar com os teus demônios. É escrever as letras, pensar nelas, pensar em qual energia você quer colocar naquilo. Até queria ser ‘mais máquina’ nesse sentido. Mas, quando você se mantém no caminho artístico, tem que lutar contra esse conforto da dessensibilização”, afirmou o músico.

Sobretudo no meio independente, no qual muitos artistas mantêm trabalhos formais paralelos, o vai-e-vem entre carreiras é mais um fator que intensifica o processo. “Esse liga e desliga também é desgastante. Pelo menos quando nós éramos adolescentes, fazíamos drama o tempo todo e tínhamos essa energia. Tanto que foi rápido para caramba fazer o primeiro álbum.”

Shoegaze (ou não)

A discussão sobre as definições do shoegaze é quase um vespeiro na cena underground: enquanto alguns classificam – de forma um tanto preguiçosa e desleixada – quase metade das bandas de rock alternativo como shoegaze, talvez pela popularidade da palavra nos últimos anos, outros defendem ferrenhamente que ele não pode ser tratado como subgênero. De qualquer forma, existe uma certa “subcena” sendo formada a partir disso e a banda não se incomoda em estar atrelada ao termo.

“Se ajuda a pessoa a entender um pouco o som, tudo bem. Não ficamos forçando lugar nenhum. Nossa música tem elementos de várias coisas. Em ‘sonhos que nunca morrem’, tem uma parte mais dream pop e outra mais grunge. Nesse próximo, nem estamos pensando nisso. Então, não incomoda. Partindo do pressuposto de que quanto maior a liberdade que o artista tem para criar e produzir, melhor o que ele faz, no final é benéfico que hoje não exista mais uma caixinha tão específica”, defendeu Gabi.

“Eu acho que nós somos muito inconsistentes para sermos de um gênero. Mas as coisas vão ganhando nomes diferentes. Hoje shoegaze é qualquer coisa, então, se você quiser que nós sejamos, beleza. Mas não é”, completou.

Seguindo um pequeno devaneio sobre discussões que só são relevantes nas redes sociais, entramos no assunto do nome da banda e a discussão dos tuiteiros sobre o quão “comercializável” ele é, mesmo sabendo que a pauta faz pouco sentido se tratando de bandas nichadas e independentes. “Acho Adorável Clichê um nome horrível para a banda. Não daria de novo (risos).”

“Parece que nós somos A Banda Mais Bonita da Cidade no primeiro impacto, talvez alguém deixe de ouvir por causa do nome. Mas, já somos Adorável Clichê e nem queremos ser outra coisa. Talvez até seja uma surpresa boa para a pessoa que ouve esperando algo tranquilinho e encontra outra coisa”, disse Marlon.

Recentemente, o quarteto foi ao Cultura Livre, da TV Cultura, que vez ou outra catapulta algumas bandas indie para fora da bolha e entrega uma enxurrada de comentários, tanto positivos quanto negativos. Apesar do resultado otimista, uma situação em específico chamou a atenção do grupo. 

“Tinha um cara, um dos únicos que nos xingou. Ele comentou coisas como ‘esse programa só traz a caçamba do lixo’. E vimos que ele realmente colocou muita energia nisso e comentou em todos os vídeos. Mas, no último reels, ficamos abismados com o comentário. Ele escreveu: ‘É um clichê, mas adorável’. Convertemos ele!”, contou Gabi.

“Acho que muita gente dá valor para hate, mas muitos vão para a internet só para xingar qualquer coisa, zoar ou descontar as merdas que aconteceram no dia. Então, acho que não se deve dar muito valor para isso. E nós também ainda não chegamos lá, até por isso não teve nenhum tipo de hate significativo”, concluiu a artista. 

No próximo domingo (27), a Adorável Clichê se apresenta na 16ª edição do Balaclava Fest, que acontecerá no Tokio Marine Hall. Além da expectativa para encontrar outras bandas, pessoas envolvidas com a cena e assistir aos shows, eles preparam algumas surpresas para os fãs:

“Vamos fazer um setlist especial, com músicas que não tocamos há muito tempo e outras inéditas que nunca tocamos. Também vamos estar com merch novo feito especialmente para o festival. Um spoiler é: ‘flores’. Apareçam lá e conversem conosco depois do show, vamos adorar.”
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