A odisseia azul de Marina Mole

Em seu novo álbum, “Azucrim”, a multiartista molda um alter ego celestial e abraça a beleza da imperfeição analógica

Percorrer a estrada da vida não é fácil para ninguém, ainda mais quando tudo parece desmoronar e resta apenas encarar a tempestade a sós. Sábias são aquelas que transformam as pedras do caminho em algo bonito. Marina Mole fez exatamente isso ao traduzir suas dores mundanas na aura etérea de Azucrim — nome de seu alter ego e de seu novo álbum, lançado na última quinta-feira, 10 de setembro.

Em entrevista exclusiva ao Rota Indie, Marina deu detalhes do processo deste novo trabalho, que começou a ser desenhado em 2022 e foi concluído em 2026, reunindo dez faixas. “Me identifico muito com o David Bowie nesse sentido da construção de um personagem. Ele precisa ter um contexto, um ambiente, um visual. Tudo para estruturar um universo próprio”, relata ao explicar a concepção de Azucrim.

Se Bowie, ao dar vida a Ziggy Stardust, narra a história de um alienígena que sucumbe ao próprio ego ao tocar a Terra, Marina concebeu um anjo que busca compreender as dores da existência humana. Sua descida não marca uma ruína, mas constrói um novo lugar pintado em tons de azul e embalado por belíssimos riffs de guitarra, onde se entende que a busca é eterna.

Marina costurou o universo de Azucrim com as próprias mãos: escreveu as músicas, desenhou a lápis as ilustrações, elaborou melodias em sua guitarra Giannini Supersonic e gravou tudo em fita de rolo. Os primeiros rascunhos começaram em Brasília – sua cidade natal – e, logo em seguida, ela embarcou para Portugal, onde passou por um período mais introspectivo, cenário que a inspirou a compor a maioria das faixas.

De volta ao Brasil, em São Paulo, finalizou o repertório em colaboração com cleozinhu (bateria e backing vocal), Lucas Monch (baixo) e Vitor Wutzki (guitarra e backing vocal), que contribuíram para estruturar os arranjos e conferir uma pegada mais rock. “As demos tinham outra vibe. Eu cheguei no Brasil e parece que levantou o astral, aí falei que não queria nada muito arrastado. Sinto uma necessidade de que as músicas tenham momentos de explosão e descontrole. É terapêutico”.

É possível perceber diversas referências musicais – desde Sonic Youth e Brian Jonestown Massacre até baladas da Jovem Guarda –, sem deixar de sentir a força de sua própria identidade.

A forma como ela conduz essa jornada é bem amarrada, com início, meio e fim: o álbum começa com o soar do berrante em 'Descida', anunciando a aventura de Azucrim na Terra, e avança pelas oscilações das dinâmicas humanas. Enquanto faixas como 'Luneta Azul' retratam a ingenuidade do amor idealizado, outros momentos expõem a ruína desse mesmo sentimento. Em cada faixa, dá para sentir o estado de espírito em que Azucrim se encontra — seja pelas letras confessionais, pelas viradas de bateria, pelo ritmo marcante das guitarras ou pelo tom da sua voz, predominantemente angelical, que por vezes se quebra em gritos, revelando ainda mais o peso emocional que o álbum carrega.

Confira abaixo os detalhes que Marina compartilhou sobre seu novo trabalho.

O cerne de Azucrim: origem do personagem e conceito

“Eu estava tendo questões pessoais e precisava inventar algo, para que eu pudesse ir um pouco mais fundo no que eu estava vivendo. Foi uma maneira que eu encontrei de criar algo maior do que eu. Eu fiquei muito tempo pensando a respeito desse personagem e o que ele significava para mim. E Azucrim vem de azucrinar. Então foi essa a ideia, de um personagem que gerasse um incômodo e que eu pudesse abraçar. Eu queria falar sobre uma jornada de experiência humana. Eu tinha me mudado para Portugal e estava me sentindo de certa forma exilada e queria que tivesse essa coisa do anjo vir à Terra e ter que viver uma experiência longe de tudo que ele conhece. 

Em uma pesquisa do gnosticismo, eu encontrei essa história do Deus Estrangeiro e achei muito interessante. Foi então que entendi que Azucrim azucrina Deus por não entender o porquê de Deus não interferir na vida dos humanos. O álbum vai passar por diferentes estados de espírito. Na primeira música, que se  chama 'Descida', ele fala: ‘eu vou descer com ou sem você’, já numa melancolia, indo para um mundo desconhecido, magoado porque Deus não entende os humanos. E aí ele vai vivendo. 'Luneta Azul' é uma música apaixonada de uma maneira idiota, sabe? Do tipo ‘casa comigo, vamos fugir para uma ilha deserta’, e depois, tudo já foi por água abaixo.”

A mistura de influências

“As coisas que eu estava lendo nesses momentos todos me influenciaram muito. A música 'Cidade ou estrela' foi inspirada em um poema de um poeta português chamado Antônio José Forte, que eu li muito enquanto eu estava em Portugal. E eu estava ouvindo obsessivamente Brian Jonestown Massacre e The Jesus and the Mary Chain. Talvez esse álbum tenha essa sonoridade que ele tem também porque os músicos que eu chamei têm estilos muito diferentes, mas que têm pontos de encontro. 

É uma salada que conseguiu fazer sentido. Você consegue ouvir as referências de Beatles, da Jovem Guarda – também tem esse lado bailinho. Ao mesmo tempo em que você consegue ouvir um lado Sonic Youth e mais shoegaze. Também tem um lado mais Ramones, sabe? A gente misturou isso de uma maneira que deu liga. São muitas referências diferentes, mas ao mesmo tempo a gente não estava tentando soar com nada.”

Processos de gravação

“Eu acho que foi muito acertada a escolha das pessoas para gravar porque eles souberam entender as ideias, as referências e as emoções que eu estava colocando nas músicas. Eles entenderam o que as músicas precisavam e a gente não ficou quebrando a cabeça para fazer os arranjos. Aconteceu de maneira muito natural, sem grandes debates. Eu falei que eu não queria invenção de moda. As músicas não precisam ter três, quatro camadas de guitarra, não precisa ter sintetizador, não precisa ter várias coisas. O objetivo era: isso aqui é rock. A gente vai tocar rock. 

Ao mesmo tempo que eu sou muito sistemática com certas coisas, eu sou muito aberta. Eu gosto muito de tocar junto com as pessoas. A gente gravou o álbum ao vivo, menos as vozes. Mas todos os instrumentos que você ouve, a gente tá tocando junto. Nada daquilo foi gravado separado, nenhuma guitarra foi regravada, nada foi colocado depois. A única coisa é a voz, porque seria impossível gravar bem essa voz ali, mas tudo aquilo ali é a nossa vibe tocando junto.”

O toque analógico na sonoridade

“Existe uma personalidade que a gravação analógica traz para música que eu acho que as pessoas tentam emular isso digitalmente com plugins caríssimos e nunca vai chegar perto do que é você fazendo com o analógico. O analógico traz um calor, um quentinho, uma textura e uma materialidade também. O álbum tem uma personalidade muito única para mim e a gravação analógica também traz surpresas. Ela tem texturas próprias. 

O que aconteceu nesse processo foi justamente as surpresas completamente fora do nosso controle que foram criadas pelo analógico, pela fita. Tem um momento que a música começa a acelerar e rola uma mudança de pitch. Isso a gente não fez, foi a fita que fez. No final das músicas tem detalhes, tem hora que muda o timbre e acaba dando um negócio muito mais original, uma coisa muito única.”

Marina Mole

A estética e o trabalho artesanal

“Eu já tinha essa conexão da cor azul com o céu e eu comecei a tentar visualizar esse personagem nessa forma humana. Comecei a pensar em coisas que são importantes para mim e coisas com movimento. A capa do álbum foi uma pesquisa bem densa. Eu queria criar uma parte visual com desenhos e fiquei um ano só para decidir se seriam feitos com tinta, caneta, lápis ou giz. Eu testei muitas coisas diferentes até entender o que eu sentia e eu me pauto muito na coisa da emoção mesmo. E o lápis grafite tem uma coisa na forma como ele se esfumaça. Eu também queria algo que fosse mais cru. 

A capa é um desenho feito à mão – todas as artes que eu faço para divulgar são feitas à mão por mim. Tudo o que eu quero é fugir do computador o máximo que der. Quero que esse momento de criação seja um momento de conexão. Para mim, é muito difícil me conectar com as linguagens extremamente digitais. Eu sempre tive uma busca pela minha linguagem, é uma busca de anos. E eu sinto que depois de testar tanto eu cheguei em algo que me identifico muito. Eu sempre gostei muito desses processos analógicos”.

A relação com a autoaceitação

“Esse álbum também veio como uma coisa de autoaceitação. Nesse processo, eu também consegui me acolher mais, acolher o meu jeito de fazer música. Eu duvidava muito do que eu fazia. Eu só comecei a fazer música porque eu escrevia poemas e os meus amigos começaram a me botar pilha. Basicamente. E me ensinaram a tocar guitarra para eu poder fazer as minhas músicas. A primeira música que eu aprendi a tocar foi 'True Love Will Find You In The End' do Daniel Johnston.

Eu vejo o meu estilo de fazer música, o meu estilo de cantar, de tocar guitarra como algo que vai ter uma aspereza, mas que eu aprimorei da minha forma, da minha maneira. Eu dificilmente vou me colocar numa posição de: ‘eu sou uma guitarrista’. Eu toco guitarra, sabe? E eu já fiquei muito insegura com isso. E aí eu percebi que o meu som soa desse jeito porque eu tô tocando. Então eu meio que me valorizei nesse lugar de que tipo assim: ‘eu sou essa pessoa, eu toco guitarra desse jeito, eu canto desse jeito e o meu som é assim’".

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