“Um Certo Azul na Sala”, de Rafa Bicalho, contrasta sentimentos agridoces e arranjos solares; veja resenha
“Um Certo Azul na Sala”, de Rafa Bicalho, contrasta sentimentos agridoces e arranjos solares; veja resenha

Em Um Certo Azul na Sala, Rafa Bicalho constrói um disco que parece existir entre o fim de uma tarde ensolarada e o começo da noite. O azul que dá nome ao álbum, para mim, é iluminado, mas já carrega aquela mudança de luz que anuncia o fim do dia. É um disco que fala de amor, ausência e melancolia sem abandonar a vontade de dançar. Pelo contrário: muitas vezes, é justamente nesse contraste entre sentimentos agridoces e arranjos solares que Rafa encontra sua identidade.
O álbum começa com Chocolate Amargo, faixa escolhida como single e uma ótima porta de entrada para o que vem pela frente. A música começa leve e vai criando camadas até crescer, sustentada por um refrão marcante que rapidamente faz o ouvinte cantar e dançar junto. Há ainda um “uhhhh” que remete bastante ao Cage The Elephant. Como primeiro contato com o disco, a escolha funciona porque apresenta sua principal característica: uma música acessível e dançante, mas que vai revelando novas camadas conforme avança.
A sensação continua em Fevereiro, que mantém o clima de tarde ensolarada e poderia facilmente acompanhar um dia de Carnaval. Já Uma rápida correção de percurso leva o álbum para outro lugar, com uma pegada mais eletrônica, guitarra mais marcante e um baixo que conduz a faixa com uma levada dançante. E quando parece que a música acabou, ela retorna, como se desse ao ouvinte mais alguns minutos antes de deixar a pista da Casa Matriz (quem é do Rio vai pegar a referência).
Perigo Estranho desacelera esse movimento para assumir uma atmosfera mais romântica, enquanto América do Sul (Vazia) recupera o clima solar, mas agora com a ausência no centro da canção. A música fala sobre o vazio deixado pela pessoa amada enquanto mantém um instrumental animado e melodias suaves. É uma das melhores representações da contradição que atravessa o álbum: há tristeza nas palavras, mas o corpo continua acompanhando a levada da música.
Essa relação entre memória e luminosidade aparece também em Caninos, pré molares e frontais. O trompete surge logo na abertura e ganha destaque ao longo da faixa,e acaba sendo a trilha para uma história construída a partir da lembrança de uma fotografia de verão de 2006. O passado aparece, mas não como algo necessariamente pesado. É mais uma lembrança que ganhou seu próprio tom de azul.
Em Hoje eu não vou sair, Rafa volta a colocar o corpo em movimento. A faixa tem uma pegada bastante dançante, próxima daquela baladinha indie citada que apareceu na faixa anterior, enquanto a letra apresenta um dilema muito cotidiano: querer observar a cidade, mas preferir ficar em casa.
Mas é em Problemas de um adeus que o azul muda definitivamente de tonalidade. Se até aqui o álbum parecia acompanhar uma tarde ensolarada, essa é a música em que o dia começa a escurecer. É o momento mais melancólico do disco com uma atmosfera mais contida. “Nada vai fazer você se acostumar, problemas de um adeus” resume a dificuldade de transformar uma despedida em algo suportável.
É também aqui que aparece um dos versos mais importantes do álbum: “Há um certo azul na sala de estar e só você consegue reparar”. A frase ajuda a explicar não apenas a música, mas a própria lógica de Um Certo Azul na Sala: determinadas lembranças e sentimentos ganham uma cor que só existe para quem os viveu. Musicalmente, a faixa traz uma atmosfera mais retrô, que pode lembrar Violeta, do Terno Rei, mas passa pelo filtro contemporâneo de Rafa.
Depois da noite, Prédios e Vãos parece representar o dia seguinte. Com a participação de Clara Bicho, a faixa recupera a luminosidade que havia desaparecido em Problemas de um adeus. É uma balada que traz o sol para a própria letra e, novamente, transforma essa sensação em música. Depois da tempestade, existe um novo dia.
E então Rafa escolhe encerrar o disco com Baby, de Caetano Veloso. A escolha é audaciosa: composta em 1968, a música atravessou gerações e ganhou interpretações de nomes como Gal Costa, Os Mutantes e Maria Bethânia. Rafa não tenta reproduzir essas versões e leva a canção para um indie rock com a sua própria identidade. Mais do que uma releitura bem executada, Baby funciona porque parece ter sido feita para encerrar justamente este álbum. O azul e a paisagem da América do Sul, presentes ao longo das faixas, encontram na canção uma forma perfeita de amarrar o conceito do álbum.
Um Certo Azul na Sala é, no fim, um disco sobre pequenas mudanças de luz. Sobre aquilo que permanece depois de um relacionamento, sobre fotografias que continuam guardando uma tarde de verão e sobre a vontade de ficar em casa enquanto a cidade continua acontecendo do lado de fora. Rafa transforma sentimentos que poderiam resultar em um disco pesado em canções que quase sempre querem dançar.
Esse azul não é uma cor fixa, chapada. Ele começa iluminado, escurece conforme as despedidas aparecem e volta a encontrar o sol no dia seguinte. Uma cor que muda de acordo com aquilo que cada pessoa consegue reparar.
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