Banda reflete sobre amadurecimento artístico no álbum ‘Todos os Cães Merecem o Céu’
Banda reflete sobre amadurecimento artístico no álbum ‘Todos os Cães Merecem o Céu’

Chococorn and The Sugarcanes vive uma fase de crescimento e consolidação na cena independente. Após o lançamento de “Siamês” em maio de 2024, a banda viu sua base de fãs crescer e precisou subir o patamar em “Todos os Cães Merecem o Céu”, segundo disco que estreou em março.
No ano passado, Alexandre Luz (bateria), Pipe Bacchin (guitarra base), Pedro Guerreiro (guitarra solo) e Pietro Sartori (baixo) rodam o Brasil, passando por 14 estados. Agora, estão em turnê com Vitor Brauer na primeira edição da +um Tour. Em entrevista ao Rota Indie, a banda conta como foi o processo de produção das novas músicas, mudanças no estilo e expectativas para os primeiros shows internacionais.
“Sinto que, na estrada, tendo que lidar com vários palcos diferentes, você aprende a alcançar sons de outras maneiras, de um jeito mais uniforme. É um exercício de resiliência. Para além disso, você se torna um músico melhor passando pelos mais diferentes perrengues. Acho que a gente amadureceu muito como músico.”
O primeiro álbum foi gravado em um estúdio improvisado em casa, enquanto o segundo já ganhou novas camadas com faixas gravadas e mixadas por Alexandre Capilé e Gabriel Zander e engenharia de áudio de Fernando Sanches.
“Aprendemos bastante de produção e gravação nesse tempo. Foi um processo importante pra todos nós. Eu tive contato com pessoas que são muito boas dentro da cena — uma cena mais antiga que a nossa, mas ainda presente — e foi muito legal essa mudança de sair do “Siamês”, de gravar num quarto, para ir até estúdios muito bons. Evoluimos muito, e continuamos evoluindo todos os dias”, completou Alexandre.
Para Pipe, a recepção do público foi mais uma forma de confirmar que eles estão no caminho certo. “Pra mim, esse disco foi aumentando o patamar e a qualidade aos poucos e me surpreendendo. Quando saíram as primeiras demos, já eram minhas músicas favoritas da Chococorn. Depois, chegavam demos novas que viravam as favoritas e isso foi acontecendo o tempo todo. Até que chegou o dia que mostramos o álbum no Porta Maldita, dias antes do lançamento, e a galera adorou. Eu pensei: ‘caramba, eles me entendem’. Eles estão entendendo o que a gente tá falando, que bom que a gente sente a mesma coisa. A partir daí foi só subida.”
“Sabemos que ‘Siamês’ é muito consagrado, tem um apelo emocional, porque as pessoas já viveram muito tempo com essas músicas. Mas a galera está disposta a ouvir as faixas novas e isso pra mim é o principal.”
Com o mundo conectado, não faltam bandas com sonoridades muito similares a artistas gringos. Não é o caso da Chococorn and The Sugarcanes. Mesmo com a influência de nomes do midwest emo como American Football, Mineral, Mom Jeans e Modern Baseball, a ideia sempre foi “abrasileirar” o som.
“Fomos seguindo nessa ideia de tentar trazer um pouco da parte mais brasileira pra música. Foi daí que surgiu o “Siamês”, com algumas temáticas em relação a distanciamento, ainda no interior. Tivemos muita influência de bandas que hoje estão rolando com a gente, por exemplo, Lupe de Lupe, Bella e o Olmo da Bruxa. Lembro muito bem do dia que a gente foi ao show da Chão de Taco e da Sophia Chablau em Piracicaba, que mudou nossas vidas. Foram super inspirações desde o começo e é uma honra estar tocando com eles hoje”, explicou Alexandre.
Apesar de Santa Bárbara D’Oeste, sua cidade natal, não ter muita estrutura de produção, a banda contou com o apoio de profissionais de regiões próximas desde o início. “Tivemos bastante apoio de uma galera de Americana. A Hub Sounds é uma casa que reúne várias bandas da cidade. A maioria é mais emo anos 2000, meio pop punk ou hardcore melódico. Mas, justo na época que estávamos começando, eles chamaram bandas da cena como Eliminadorzinho, Sophia Chablau, etc. A Império Contra Ataca!, minha outra banda, tocou com Sugar Kane e foi quando eu conheci o Capilé pela primeira vez. Tem um movimento legal”, avaliou Pietro.
A busca por referências nacionais continuou em “Todos os Cães Merecem o Céu”. “Ainda existe a influência do midwest emo, com certeza, mas eu diria que não foi o carro-chefe dessas composições. Olhamos muito mais pro Brasil. Talvez a maior influência seja Los Hermanos. Não que exista uma similaridade sonora tão grande, mas existe uma referência forte. E buscamos em outros lugares também, Porter Robinson foi outra influência muito forte.”
Sem perder de vista os temas que caracterizam o projeto, como a juventude e a amizade, eles se permitem explorar novos gêneros enquanto tentam ressignificar o termo “emo caipira”.
Difundido pela Chococorn junto de bandas como Chão de Taco e Glover., o conceito que ganhou força no contexto pós-pandêmico mistura de referências do emo norte-americano e da cultura do interior paulista. No entanto, a expansão para outras regiões gerou a necessidade de atualizar a definição.
“Eu acho que ‘emo caipira’ foi uma tentativa de trazer uma estima maior pro pessoal do interior, não só geográfico, mas também fora do eixo Rio-São Paulo. Muita gente do Sul e do Nordeste se identificava com o termo, o que era muito legal. Mas, no fim, acabou virando algo mais excludente do que inclusivo.”
“Então, estamos tentando ressignificar o termo, usá-lo para construir nossa identidade dentro do indie rock. Ainda gostamos do termo, não é uma vergonha”, pontuou Alexandre.
Mesmo ainda morando em Santa Bárbara, eles estão cada vez mais na estrada, o que se reflete nas composições. “Estamos nos movendo pra outros lugares, inclusive vindo mais pra São Paulo, então a temática do interior acabou ficando um pouco mais difusa nas músicas recentes. Estamos nos afastando um pouco disso, mesmo sem conseguir fugir completamente.”
No início de maio, eles tocam os primeiros shows internacionais na Argentina e no Uruguai. Será também a primeira vez que alguns deles saem do país e a expectativa é alta. “Vai ser uma experimentação. Sabemos que o público não nos conhece na Argentina nem no Uruguai, mas vai ser legal estar em um país diferente.”
“Eu sinto que as músicas na América Latina são meio autocontidas, o Brasil faz música pro Brasil, a Argentina pra Argentina. Então, não sei como vai ser a recepção, mas estamos animados. E também vai ser a primeira vez fora do país. Eu fiz dois anos de letras-espanhol, então quero testar isso também”, disse Pietro.
Parte da +um tour, as apresentações acontecem ao lado de Vitor Brauer, que tem os projetos Lupe de Lupe, Desgraça, Ginge, Lencinho, Tristeza Não Tem Fim e Xóõ. Com mais de uma década de carreira em comparação com a Chococorn, ele é visto como referência pelos músicos que, apesar do tempo relativamente curto de banda, vêm ganhando cada vez mais experiência nos palcos.
“Ele é muito gente boa. Eu e o Alê vamos tocar com ele nessa turnê, e ensaiamos ontem pela primeira e única vez. Foi difícil porque ele coloca umas maluquices nas músicas, mas foi muito legal. Sou muito fã de Lupe de Lupe, então pra mim é uma honra. É meio que um sonho. Lembro quando a gente começou a banda e eu queria muito tocar com eles. Agora, vou tocar no mesmo palco, ao mesmo tempo, com o Vitor Brauer. Isso me deixa muito feliz”, completou o baixista.
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